“Quando amar é obedecer, e renunciar se torna a forma mais pura de permanecer em Deus.”
Ele voltou como quem não devia, mas ainda sabia o caminho.
E eu, como quem já conhecia o desfecho, mas ainda sentia o mesmo arrepio.
Era o mesmo sorriso, o mesmo jeito calmo, a mesma voz que parecia me ler por dentro.
Mas havia também o mesmo abismo — e agora, eu já sabia o nome dele.
Ele dizia que queria me ver, e eu fingia que não ouvia.
Porque ver seria reabrir portas que Deus já tinha trancado com as próprias mãos.
E eu não queria desobedecer — mas também não queria deixar de amar.
Foi nesse limite entre a fé e o afeto que aprendi a forma mais dolorida de amar: a distância.
E enquanto eu lutava contra o que sentia, Deus me lembrava daquilo que é eterno.
Daquilo que não se confunde com desejo, nem se mede em presença.
E a Palavra sussurrava dentro de mim:
“Não ameis o mundo, nem o que há no mundo.” — 1 João 2:15
Ele me contava das lutas, da solidão, do vazio depois da queda.
E eu ouvia tudo com o coração apertado, pedindo em silêncio pra Deus não me deixar voltar pra lá.
Porque eu sabia que amar não era o problema.
O problema era o que o amor poderia me custar.
E eu não podia mais pagar o preço de me afastar do propósito por tentar ser a cura de alguém.
E foi ali que compreendi o que Jesus quis dizer quando falou sobre renúncia.
Porque amar a Deus, às vezes, significa negar a própria vontade.
“Negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.” — Lucas 9:23
Ele não era mau. Era ferido.
Ferido de um jeito que o tempo não consertou e a fé não alcançou.
Um homem que aprendeu a viver sem Deus, e achou que isso era liberdade.
Mas eu sabia que era só um cativeiro com outro nome.
E ainda assim, eu me importava.
Não aquele importar que prende, mas o que ora.
Não o que insiste, mas o que intercede.
Eu queria que ele fosse feliz, que encontrasse a fé que perdeu,
que se perdoasse por tudo o que o mundo cobrou.
Mas eu sabia que esse não era o papel que Deus me deu.
Não era a minha missão salvá-lo — era a minha prova deixá-lo ir.
Então, quando ele dizia que queria me ver, eu sorria e fugia.
Não por medo, mas por obediência.
Porque o amor que vem de Deus não é o que nos tira da rota,
é o que nos ensina a continuar andando mesmo com o coração dividido.
E foi isso que Ele me ensinou: que amar também era saber ficar longe.
De tempos em tempos, ainda penso nele — não com dor, mas com compaixão.
Porque entendi que o amor verdadeiro não precisa de presença para existir.
Ele apenas muda de forma, se recolhe em oração e encontra repouso na vontade de Deus.
E talvez essa seja a versão mais pura do amor:
Quando ele deixa de ser desejo e se torna intercessão.
E todas as vezes que a saudade tentava me puxar de volta, eu lembrava do que Jesus disse:
“Quem amar seu pai, sua mãe ou a sua própria vida mais do que a mim, não é digno de mim.”
— Mateus 10:37-39
Confesso que não sei o que Deus fará com a história dele, mas sei o que Ele já fez com a minha.
Me ensinou a diferenciar apego de propósito, cuidado de salvação, amor humano de amor divino.
E foi assim que aprendi a amar de um jeito novo:
Sem posse, sem pressa e, principalmente, sem perder o foco do Céu.
“Aquele que perder a sua vida por minha causa, a encontrará.” — Mateus 16:25