“A coragem de abrir o que dói, para nunca mais precisar fingir que cicatriz é silêncio.”
Houve um dia em que eu decidi abrir um baú.
Não por curiosidade.
Por necessidade.
Era um lugar antigo, fechado há anos, onde eu havia empurrado dores, feridas, traumas e versões minhas que eu preferia não encarar.
Não porque eu não soubesse que estavam ali, mas porque sobrevivi por muito tempo acreditando que silêncio era sinônimo de cura.
Abrir aquele baú não foi um gesto poético.
Foi um ato cru.
Violento.
Um rompimento interno que me fez entender que não existe cura verdadeira onde ainda há tranca.
“Porque nada há encoberto que não venha a ser revelado; e oculto, que não venha a ser conhecido.”
— Lucas 12:2
E eu não joguei a chave fora.
Isso seria pouco.
Eu arranquei a tranca.
Porque arrancar a tranca é aceitar que não existe mais retorno confortável.
É compreender que, uma vez exposta à luz, a dor não aceita mais ser empurrada de volta para o escuro.
É assumir que o processo de cura não acontece em linha reta, ele sangra antes de cicatrizar.
“Ele sara os quebrantados de coração e lhes ata as feridas.”
— Salmos 147:3
Durante muito tempo, eu acreditei que curar era aliviar.
Mas hoje eu sei: curar, quase sempre, é atravessar.
E abrir o baú doeu mais do que mantê-lo fechado.
Porque enquanto ele estava trancado, a dor era silenciosa.
Depois de aberto, ela começou a falar.
E falar alto.
Houve dias em que revisitar feridas me fez questionar se eu estava indo longe demais.
Se mexer em tudo aquilo não era imprudência.
Se não seria mais fácil fechar tudo de novo, reorganizar a bagunça por cima e seguir funcionando.
Mas quem já abriu o que estava apodrecendo por dentro sabe:
Não existe mais conforto no autoengano.
“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
— João 8:32
E eu descobri que muita gente começa esse processo.
Mas poucos continuam.
Porque chega um ponto em que a dor aumenta antes de diminuir.
Em que as memórias voltam com cheiro, som e peso.
Em que você entende que não está apenas se curando — está se despindo.
É nesse ponto que a maioria fecha o baú.
Volta atrás.
Chama de “superado” aquilo que apenas foi abafado.
Mas eu não conseguia mais.
Não porque eu fosse mais forte.
Mas porque algo em mim entendeu que retroceder seria adoecer de novo.
E então veio a revelação que mudou tudo:
Eu não estou me tornando a mulher que eu “deveria ter sido desde sempre”.
Essa versão nunca existiu.
Eu estou me tornando a mulher que só poderia nascer depois de tudo o que vivi.
Os erros, as quedas, os excessos, as fases confusas, as versões que eu mesma julguei, tudo isso não foi desperdício.
Foi matéria-prima.
Porque o tempo não erra quando permite certos caminhos.
Ele forma.
E o futuro que me espera depende diretamente da mulher que eu tive coragem de construir agora.
Com verdade, com consciência e com responsabilidade emocional.
Mas no meio de todas essas versões — da mais perdida à mais consciente
Houve algo que nunca me abandonou: a palavra.
Sempre foi ela.
Mesmo quando eu a usei para encantar e não para curar.
Mesmo quando eu a usei para sobreviver e não para revelar.
Mesmo quando eu a usei para esconder mais do que para mostrar.
O dom da fala sempre esteve comigo.
A diferença é que, agora, eu parei de usá-la como escudo e comecei a usá-la como instrumento.
Hoje, a palavra não é mais maquiagem.
É bisturi.
Ela não seduz — revela.
Não protege — transforma.
E talvez você, que chegou até aqui, também esteja vivendo algo parecido.
Talvez tenha aberto um baú achando que encontraria alívio e se deparou com dor.
Talvez tenha pensado em voltar atrás, em fechar tudo de novo, em fingir que não viu.
Mas a verdade é que Deus não cura o que permanece escondido.
Ele cura o que é entregue.
A Palavra nunca foi feita para maquiar feridas, mas para trazê-las à luz.
E trazer à luz dói.
Mas liberta.
Enquanto eu mantive o baú fechado, eu sobrevivi.
Quando eu o abri diante de Deus, eu comecei a viver.
Porque o Senhor não trabalha com trancas.
Ele trabalha com rendição.
Hoje eu entendo que a palavra sempre foi um presente d’Ele em mim.
Mas só agora eu aprendi a usá-la do jeito certo.
Não para encantar pessoas.
Mas para permanecer inteira.
Não para fugir da dor.
Mas para atravessá-la com Deus.
Se abrir o baú doeu, é porque a cura começou.
E se já não há mais como fechá-lo, talvez seja porque o céu decidiu que você — assim como eu — não viveria mais pela metade.
“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos.
Vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno.”
— Salmos 139:23–24