“Sobre padrões, pertencimento e o descanso de saber quem se é em Deus.”
Todos os domingos à noite, antes de dormir, eu leio um capítulo aqui do blog para as minhas filhas.
A gente ora junto, conversamos um pouco, e então o dia se encerra em paz.
É um ritual simples, mas sagrado. Um desses momentos em que o mundo desacelera e a alma fala mais alto.
Foi em uma dessas conversas que a Maria Eduarda, com seus doze anos e o coração já atravessando a delicada fronteira da adolescência, me disse com naturalidade:
“Mãe, por que você não escreve um capítulo sobre tentar se encaixar em padrões?”
Ela falou como quem comenta sobre amigos.
Mas eu ouvi como quem reconhece um pedido silencioso.
Porque, no fundo, ela não estava falando só dos outros.
Estava falando dela. E, sem saber, estava falando de muitos, principalmente de mim.
De fingir gostar do que não gosta só para não ser excluída.
De concordar para não ser apontada.
De se moldar para não virar alvo.
De tentar caber em formas que não respeitam quem ela é.
E como isso cansa. Como isso adoece.
Porque existe um peso invisível em tentar se encaixar o tempo todo.
Um esforço contínuo de ajustar a voz, o gosto, o comportamento, o jeito de ser.
A gente ri do que machuca, aceita o que fere, se adapta ao que não faz sentido.
Tudo em nome de pertencimento.
Não porque quer, mas porque precisa sobreviver emocionalmente.
Isso acontece em todas as idades, mas na adolescência dói mais.
Porque é justamente ali que a identidade ainda está sendo formada.
E quando ela não encontra um alicerce firme, qualquer grupo vira tribunal.
Qualquer opinião vira sentença.
Qualquer rejeição vira prova de que algo está errado com você.
Mas a Bíblia nos alerta:
“Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente.”
— Romanos 12:2
Não como um peso religioso, mas como um diagnóstico amoroso.
Porque se conformar demais ao mundo tem um preço: aos poucos, a gente vai desaparecendo.
O problema não é se adaptar.
O problema é se perder tentando caber.
E eu sei disso porque já fui essa pessoa.
Já fui uma mulher de fases, de versões, de personagens. Extremamente camaleão.
Mudava de ambiente em ambiente e me moldava com uma facilidade impressionante.
Tinha uma personalidade para cada lugar, para cada pessoa.
Eu me tornava exatamente o que esperavam de mim.
Na época, meus amigos brincavam dizendo que quando alguém comentava “nossa, gostei tanto de você, Pamela”,
a minha resposta deveria ser: “claro, eu acabei de criar essa personalidade especialmente pra você”.
E, de certa forma, era verdade.
Mas não era versatilidade. Era carência de identidade.
Não era empatia. Era desespero por aceitação.
Eu achava que precisava ser quem o outro esperava para merecer lugar.
Quando, na verdade, eu precisava descobrir quem eu era.
Quem Deus dizia que eu era. Quem Ele havia definido antes de qualquer expectativa humana.
Porque o adoecimento começa quando vivemos como personagens.
Quando sustentamos versões que não descansam.
Quando nunca podemos simplesmente SER.
O corpo cansa. A alma se confunde.
E o coração se esvazia — mesmo estando cercado de gente.
E a raiz disso tudo é mais profunda do que parece.
Não é só pressão social.
Não é só bullying.
Não é só fase.
É identidade fora da fonte certa.
Mas a Bíblia diz:
“Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus.”
— 1 João 3:1
E quando sabemos quem somos em Deus, o mundo perde o poder de nos definir.
Quando entendemos que somos filhos, escolhidos, amados e pertencentes, a aprovação externa deixa de ser sobrevivência e vira apenas consequência.
Mas eu sei: para um adolescente, isso é muito mais difícil.
A sociedade é cruel. A juventude cobra caro pela diferença.
Ser quem se é, muitas vezes, parece perigoso demais.
Mesmo assim, Deus não ignora essa dor.
Ele antecipa identidade antes mesmo da confusão quando nos lembra:
“Antes que te formasse no ventre, eu te conheci.”
— Jeremias 1:5
E você não precisa se descobrir.
Você precisa se lembrar.
Lembrar que não nasceu para performar.
Que não precisa fingir.
Que não precisa gostar do que não gosta, aceitar o que te fere, ser menor para caber.
Existe um lugar onde você pode ser inteiro.
Onde não há exigência de personagem.
Onde a identidade é firmada no secreto, na presença e na relação íntima com Deus.
E quando isso acontece, algo muda por dentro.
Porque Deus nos lembra:
“Maior é o que está em vós do que o que está no mundo.”
— 1 João 4:4
Por isso, se você é jovem e está cansado de tentar se encaixar, eu quero te dizer:
Você não precisa se anular para pertencer.
E se você é adulto e ainda vive sustentando versões para ser aceito, saiba:
Ainda há tempo de voltar para casa e ser quem você é.
Porque quando sabemos quem somos em Deus, o mundo perde o direito de nos moldar.
E o coração, finalmente, descansa.
Descansa porque entende que não precisa mais provar nada.
Que não precisa caber em padrões vazios e cruéis.
Que não precisa se diminuir para ser aceito.
Deus já disse quem somos.
Somos filhos.
Somos amados.
Somos vistos.
Somos planejados antes mesmo de existir.
A Palavra nos lembra que não somos fruto do acaso, nem resultado de expectativas humanas, mas obra intencional das mãos de Deus — criados com propósito, identidade e destino.
E quando entendemos isso, algo muda:
A maior preocupação deixa de ser pertencer ao mundo e passa a ser permanecer no centro da vontade de Deus.
Sensíveis à Sua voz.
Disponíveis ao Seu direcionamento.
Dispostos a seguir o propósito que Ele desenhou, ainda que isso signifique não caber nos padrões do mundo.
Porque os padrões do mundo são barulhentos, exigentes e passageiros.
Mas a vontade de Deus é boa, agradável e perfeita.
É nela que a alma encontra sentido.
É nela que a identidade se firma.
É nela que o coração encontra descanso verdadeiro.
“Pois o Senhor não vê como vê o homem.
O homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração.”
— 1 Samuel 16:7