Capítulo 88 —  Dores da Alma III — O Silêncio do Puerpério: Quando a mulher morre para a mãe nascer

Ninguém me avisou que junto com a chegada de um filho eu enterraria uma parte de mim.

Todos celebravam o nascimento.
As visitas chegavam.
Os parabéns se multiplicavam.
Os olhares se voltavam para o bebê.

E eu… eu estava ali.
Inteira por fora.
Fragmentada por dentro.

O puerpério não começou com tristeza.
Começou com estranhamento.

Era como acordar no próprio corpo e não se reconhecer.
Como habitar uma vida que agora girava em torno de alguém
E não saber mais onde eu cabia.

Eu amava minhas filhas.
Mas isso não impediu o vazio.
Não anulou o medo.
Não organizou o caos interno que os hormônios, o cansaço e a solidão criaram.

E em algum momento, a mulher que eu era pareceu morrer em silêncio.
Ela não morreu de vez.
Mas foi colocada em espera.

O mundo esperava que eu estivesse plena, grata e realizada.
Afinal, a maternidade é vendida como o auge da feminilidade.

Mas ninguém fala do luto invisível.
Do luto pelo corpo que mudou.
Pela rotina que acabou.
Pela identidade que se perdeu.
Pela mulher que ainda não sabe como existir agora.

Eu me sentia anulada e, ao mesmo tempo, culpada por me sentir assim.

Culpada por não corresponder à imagem da mãe forte.
Culpada por sentir falta de mim.
Culpada por não conseguir explicar o que doía.

E o silêncio do puerpério é a parte mais cruel.
Porque enquanto todos perguntam se o bebê dormiu, se comeu, se ganhou peso
Quase ninguém pergunta se a mãe ainda existe nos bastidores.

Os holofotes se voltam para o filho.
E a mulher desaparece no fundo da cena.

Eu estava rodeada, mas profundamente só.

Sozinha nas madrugadas.
Sozinha nas dúvidas.
Sozinha no medo de não dar conta.
Sozinha tentando ser tudo quando, por dentro, não sabia mais quem eu era.

E a Bíblia já havia nomeado esse lugar antes de mim:
“Por que está abatida, ó minha alma, e por que se inquieta dentro de mim?”

E o puerpério também distorce nossa visão.
Coisas pequenas pesam toneladas.
O choro parece interminável.
O cansaço vira desespero.
A mente não descansa, nem quando o corpo deita.

E nessa exaustão, a gente começa a agir no automático.
Se fecha.
Se endurece.
Se isola.
Não porque não ama, mas porque não tem mais de onde tirar.

E aos poucos, o auto abandono se instala.
A mulher deixa de se cuidar.
De se olhar.
De se ouvir.
E até de se amar.

E o mundo segue, enquanto ela tenta sobreviver ao próprio colapso interno.

E eu me lembro que houve dias em que pensei em desaparecer.
Não por não amar a vida.
Mas por não suportar mais o peso de existir naquele estado.
Era dor demais para um coração só.

E isso não me fez menos mãe.
Me fez humana.

Porque me lembrei que homens e mulheres de Deus já tocaram esse limite antes.
Jeremias chegou a dizer que preferia não ter nascido.

E eu finalmente entendi que não era ingratidão.
Era dor sem nome.

Mas a cura não veio rápido.
Nem veio bonita.

Houve ajuda profissional.
Houve conversa.
Houve acolhimento.

E houve Deus.
Não como cobrança.
Mas como colo.

Ele não me exigiu força.
Ele me ofereceu presença.

Nos detalhes pequenos.
No dia que passou.
Na noite que terminou.
Na paz que voltou.
Na identidade que Ele restaurou.

Hoje, olhando para trás, eu vejo o que na época eu não conseguia enxergar:
Ele estava ali quando todos ao redor não me enxergavam.

E com o tempo, entendi algo profundo.
A maternidade não mata a mulher.
Mas ela exige que a mulher seja reencontrada.

E o problema é quando a sociedade celebra o nascimento do filho e abandona a mãe no processo.
O problema é quando a mulher não sabe quem é, além do papel que passou a exercer.
O problema é o silêncio de quem já passou por isso, mas não alertou as demais sobre o processo.

E eu precisei reaprender quem eu era em Deus
Antes de aprender quem eu era como mãe.
Porque só assim a maternidade deixou de ser prisão e se tornou chamado.

Hoje eu sei que aquele vale não foi castigo.
Foi preparação e lapidação.

Hoje eu sei que a dor me ensinou a cuidar de outras mulheres que ainda estão em silêncio.

Não como quem dá respostas.
Mas como quem senta no chão ao lado delas e diz:
“Eu sei. Eu também passei por isso.”

E se você está nesse lugar agora: confusa, exausta, invisível
Saiba: você não desapareceu.

Você está sendo reconstruída.
E Deus te viu quando ninguém mais viu
E Ele ainda sussurra sobre você:

“Antes de formá-la no ventre, eu a escolhi.” (Jeremias 1:5)

Porque antes de ser mãe, antes de qualquer papel, você sempre foi filha.
E isso ninguém pode te tirar.

“Ainda que um pai ou uma mãe se esqueçam de seu filho, Deus nunca se esquece de nós.”
(Isaías 49:15)

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

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