Capítulo 98— Quando ser inteira já não basta

“Entre o medo de me perder e a coragem de me tornar um.”

Por muito tempo, eu achei que maturidade era aprender a não me misturar.
A não me envolver demais.
A não me perder.

Achei que amor saudável era cada um no seu lugar, inteiro, intacto, protegido.
Mas isso não era maturidade, era defesa.
Era medo vestido de autocuidado.

Hoje eu entendo que um casamento não nasce da soma de dois indivíduos preservados,
Mas da fusão de duas histórias dispostas a serem transformadas.

Um casamento bem-sucedido exige mais do que convivência; exige rendição.
Não é sobre dividir o mesmo teto, mas sobre permitir que Deus faça de dois, um só.

É como preparar um purê de batatas.
Antes de qualquer coisa, a batata precisa ser descascada.
E descascar dói.
É se despir de quem se era antes…
Das identidades rígidas, das certezas absolutas, das versões solitárias que funcionavam quando não havia outro.

Porque a Palavra não diz que dois coexistirão
Diz que se tornarão uma só carne.

Há perda aí.
Há renúncia.
Há abandono do antigo eu.

E depois de descascada, a batata é cortada.
E esse talvez seja o momento mais sensível:
Ajustar atitudes que ferem, comportamentos que não cabem mais, hábitos que não honram o amor.

Ser cortado não significa ser diminuído, mas moldado.
O outro revela arestas que sozinhos nunca veríamos 
Não para nos ferir, mas para nos afiar.

Em seguida, vem o fogo.
O cozimento.
O processo invisível, silencioso e inevitável que ninguém controla.

É o Espírito Santo fazendo o que nenhum acordo humano consegue fazer: transformar natureza.
Porque ninguém se torna um por esforço próprio.
É no fogo que a dureza cede,
que a resistência cai,
que o orgulho perde força.

Não é punição — é preparação.
Não é castigo — é cuidado.

E então, por fim, a mistura.
A entrega real.
A submissão mútua.

Ceder onde precisa, ajustar o sabor, permitir que o outro também entre na sua composição.
É quando já não dá mais para identificar onde termina um e começa o outro.

O amor deixa de ser preservação do ego
E passa a ser construção de unidade.

Quando esse processo não acontece, o casamento vira apenas um saco de batatas.
Duas pessoas inteiras, intactas, lado a lado, compartilhando o mesmo espaço, mas nunca se tornando um.

Cada um segue sendo quem sempre foi.
Não há fusão, só proximidade.
Não há transformação, só convivência.

E eu já vivi os dois cenários.
Já experimentei a fusão, onde também experimentei a dor de um fim que não foi bom.

E isso me feriu.
Me fez acreditar que talvez o problema tivesse sido a forma como eu me entreguei.
Que amar profundamente fosse um erro.
Que ser um fosse perigoso demais.

Então, para me proteger, virei saco de batatas sem perceber.
Presente, mas não misturada.
Afetuosa, mas contida.
Inteira, porém isolada.

Até que Deus, com paciência e verdade, começou a tratar feridas antigas.
Não para me endurecer, mas para me curar.

E foi nesse processo que Ele me mostrou algo libertador:
O problema nunca foi a entrega.
Nunca foi o amor.

Outras questões levaram aquele relacionamento ao fim,
mas não existe casamento segundo o coração de Deus sem fusão.

Não existe aliança sem transformação.
Não existe “nós” onde cada um insiste em permanecer intacto.

Hoje eu sei:
Não há outra forma de amar de verdade.
Não há outro modelo de aliança.

Deus não nos chama para coexistir, mas para nos tornarmos um.

E isso só é possível quando Cristo está no centro,
conduzindo cada etapa do processo — do descascar à mistura final.

Porque o que Deus une, Ele primeiro trata.
O que Ele ajunta, Ele antes transforma.
E o que Ele transforma, Ele sustenta.

“Assim já não são dois, mas uma só carne.
Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem.”
— Mateus 19:6

E que jamais nos esqueçamos:
Um casamento não se sustenta pela força de dois, mas pela presença de um Terceiro.

“O cordão de três dobras não se rompe com facilidade.”
— Eclesiastes 4:12

Porque quando Deus é a terceira dobra,
a entrega deixa de ser risco e passa a ser aliança.

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

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