Capítulo 100 — Quando eu parei de viver na margem

Eu sempre achei que fé fosse uma coisa instantânea.
Como se, no momento em que alguém dissesse “eu creio”,
o coração automaticamente se tornasse firme, inabalável, pronto para caminhar sobre as águas como Pedro.

Mas a verdade é que na prática, fé pra mim, sempre se pareceu mais com uma piscina.

Tem gente que vive a vida inteira sentada na borda.
Os pés até molham, talvez até o tornozelo, mas o coração continua seco.
São aqueles que ainda não conhecem Deus de verdade
Conhecem histórias, conhecem religião, conhecem a ideia de um Criador… mas não conhecem intimidade.
Questionam, murmuram, esperam provas antes de obedecer.
Querem que Deus se explique antes de confiar.
Querem ver antes de andar.
E eu entendo… porque eu já fui assim.

Outros entram um pouco mais.
A água chega no joelho.
Já existe um passo, já existe um começo, já existe um toque…
Mas ainda há cautela demais.
Ainda há medo demais.
Ainda há aquele pensamento escondido:
“E se eu afundar rápido demais?”

E então existem os que caminham até a cintura.
Já estão dentro.
Já provaram.
Já sentiram.
Mas ainda não mergulharam.
Ainda querem controle.
Ainda deixam uma parte de si do lado de fora, como quem diz:
“Deus, eu vou… mas não tudo. Ainda não completamente.”

E existem aqueles que pularam.

De cabeça.
Sem negociar.
Sem exigir garantias.
Sem precisar tocar o fundo antes de confiar no abraço da água.

Esses acenam da parte mais profunda, chamando outros:
“Vem… aqui é seguro.”
Não porque a profundidade não assusta,
mas porque ali se descobre uma coisa que só se aprende mergulhando:
Deus sustenta.

Só que esse processo é individual.
O tempo de Deus não é industrial.
Ele não opera em massa.
Ele opera em alma.

E no meu caminho, eu passei por todas as fases.

Durante muito tempo eu achei que conhecia Deus…
mas eu vivia nas margens.
Eu frequentava a borda.
Eu molhava os pés.
Eu tinha fé suficiente pra falar sobre Ele,
mas não intimidade suficiente pra descansar nEle.

Depois eu entrei.
Experimentei.
Caminhei até sentir a água na cintura.
Mas em algum momento eu recuei.
Saí da piscina.
Me afastei.
Porque a vida acontece, porque o mundo grita, porque a rotina engole, porque a alma se distrai.

Mas no meu reencontro mais recente com Deus… foi diferente.

Dessa vez, eu não testei.
Eu mergulhei.

E quando você mergulha, você enxerga com clareza.
Você percebe quem você era… e quem você está se tornando.
Você também passa a enxergar o outro, não pra julgar, mas pra ajudar.
Porque a presença de Deus não nos torna superiores, nos torna lúcidos.
Nos torna quebrantados.
Nos torna mais humanos.

E é nesse lugar que uma frase sempre volta como um eco dentro de mim:
“A voz de Deus é como um sussurro numa sala barulhenta.”
E você só reconhece esse sussurro se tiver intimidade suficiente.

Porque Deus não compete com o caos.
Ele chama.
Ele não grita.
Ele conduz filhos, não multidões ansiosas.

E quanto mais fundo eu estou, mais fácil é discernir:
o que vem dEle,
o que vem do homem,
o que vem do mundo,
e o que vem dos meus próprios desejos.

É isso que traz paz.

Não é a ausência de dúvidas…
é a presença de Deus no meio delas.

Eu percebi que fé não é um evento.
É um exercício diário.
É consultá-lo durante o dia.
É chamá-lo pra dentro das decisões pequenas.
É pedir ajuda quando o fardo pesa.
É agradecer mais do que pedir.

E então minhas orações mudaram.

Hoje eu quase não peço coisas.
Eu peço sustento.
Peço sensibilidade.
Peço que Ele não me deixe desviar.
Peço que eu nunca perca o ouvido espiritual.

Porque o evangelho nunca prometeu uma vida sem aflições.
Jesus prometeu presença.

“No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo: Eu venci o mundo.”
(E isso basta.)

E quando a gente confia que existe um Deus regendo tudo, a vida desacelera.
A ansiedade perde autoridade.
O coração repousa.
A alma aprende a respirar.

E então a gente começa a perceber milagres
Não só nos grandes acontecimentos, mas nas coisas pequenas, banais, invisíveis…
Porque Deus está o tempo inteiro fazendo algo por nós.

Mas existe uma vigilância que nunca pode ser terceirizada:
Cuidar do coração.

Porque o que mancha o homem não é o que entra… é o que sai.
Não é o que vem de fora que nos torna impuros… é o que nasce dentro.

“Porque de dentro, do coração dos homens, vêm os maus pensamentos…”
(Marcos 7)

E é por isso que não existe pureza sem rendição.
Não existe coração limpo sem presença.
Não existe transformação sem mergulho.

Nossa natureza nos puxa pra queda.
Mas Deus nos puxa pra casa.

E talvez seja isso, no fim:
Fé é parar de viver na borda.
Fé é entrar.
Fé é confiar que a piscina é profunda… mas os braços do Pai são mais.

E quem mergulha, descobre:
“O Senhor é bom… e perto está dos que têm o coração quebrantado.”
(Salmo 34:18)

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

Compartilhe essa postagem

Comentários que floresceram por aqui.

0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments