Capítulo 112 — Quando Deus me parou porque eu não sabia parar

O dia em que eu descobri que não era eu quem sustentava tudo.

Existem momentos em que Deus não fala em sussurros.
Ele fala em pausas.

Eu estava vivendo exatamente o tipo de fase que sempre me desafia:
Empresa nova, time novo, metas altas, responsabilidades novas.
E eu queria dar conta de tudo.
Queria mostrar resultado no trabalho.
Queria cuidar das minhas filhas.
Queria manter a casa funcionando.
Queria gravar os episódios do blog que estavam atrasados.

E, no meio dessa corrida, meu corpo começou a dar sinais.
Uma infecção urinária.
Febre.
Dor.
Mas nada que, na minha cabeça, justificasse parar.
Então eu me automediquei.
E continuei trabalhando.
Continuei resolvendo tudo.

Quatro dias depois, meu corpo simplesmente não aguentou mais.
O que era para ser apenas uma ida rápida à emergência para pegar uma receita e voltar para casa se transformou em algo que eu jamais imaginei:
Uma infecção nos dois rins e três dias internada no CTI.

De repente, tudo aquilo que eu estava tentando sustentar parou.
Eu não podia trabalhar.
Não podia cuidar da casa.
Não podia buscar minhas filhas.
Não podia gravar meu podcast.
Não podia sequer levantar da cama para ir ao banheiro.

Eu estava ali, deitada, dependente de enfermeiras para tudo.
Sem telefone.
Sem relógio.
Sem saber se era dia ou noite.
Enquanto isso, minha mãe cuidava das meninas, resgatava meu carro, organizava o que eu não podia mais organizar em casa. Outra pessoa assumia a liderança do meu time e tudo seguia sem mim.

E foi ali, naquele silêncio forçado, que comecei a me perguntar:
“Deus, qual é a lição por trás disso?”
Porque Deus nunca desperdiça processos.

E aos poucos comecei a entender algo que me constrangeu profundamente.
Talvez essa experiência não fosse sobre fé para crer na cura.
Porque isso eu tenho e muita.

Talvez fosse sobre algo muito mais difícil para mim:
Fé para descansar.
Fé para diminuir o ritmo.
Fé para desacelerar.
Fé para aceitar que eu não preciso sustentar tudo.

Porque a verdade é que eu sempre fui o tipo de pessoa que mergulha de cabeça.
Eu dou o meu melhor.
Eu entrego além do esperado.
Eu assumo responsabilidades com seriedade.
Mas muitas vezes faço isso às custas de mim mesma.

Deixo o descanso para depois.
Deixo o cuidado para depois.
Deixo meu corpo para depois.
Até que chega um momento em que o corpo diz:
“Agora é a minha vez de falar.”

Foi ali, naquela cama de hospital, sem poder fazer absolutamente nada, que comecei a perceber algo que me marcou profundamente.
Tudo aquilo que eu achava que cairia se eu parasse… continuou de pé.

Minhas filhas foram cuidadas.
Minha mãe apareceu exatamente quando eu precisava.
Minha casa continuou existindo.
O trabalho continuou acontecendo.
O mundo não desabou.

E essa constatação, que poderia parecer desconfortável à primeira vista, trouxe uma liberdade enorme.
Porque muitas vezes carregamos um peso silencioso:
O peso de acreditar que tudo depende de nós.

Que se pararmos, tudo trava.
Que se desacelerarmos, tudo desmorona.
Que se não estivermos presentes, nada funciona.

Mas aqueles dias no CTI me ensinaram algo que eu precisava entender:
Eu sou importante.
Mas eu não sou indispensável.

E perceber isso não diminui o meu valor.
Pelo contrário.
Me liberta do peso impossível de tentar sustentar o mundo nas minhas costas.

Existe um princípio bíblico muito profundo nisso.
“Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes.”
— Tiago 4:6

E geralmente, quando pensamos em soberba, imaginamos arrogância.
Mas existe uma forma muito mais sutil de soberba que quase ninguém percebe.
É quando acreditamos que precisamos dar conta de tudo sozinhos.

Quando assumimos responsabilidades demais.
Quando ignoramos nossos limites.
Quando continuamos correndo mesmo quando o corpo pede pausa.

Não porque queremos aparecer.
Mas porque acreditamos que se nós não fizermos, ninguém fará.
E sem perceber, começamos a viver como se tudo dependesse da nossa força.

Humildade, nesse caso, não é se diminuir.
Humildade é reconhecer algo que a nossa natureza resistente tem dificuldade de aceitar:
Eu tenho limites.
Eu não controlo tudo.
Eu preciso parar.
Eu preciso de ajuda.

E talvez não exista lugar que ensine isso tão rapidamente quanto um CTI.
Ali ninguém é autossuficiente.
Ali ninguém tem controle.
Ali aprendemos, em poucas horas, algo que muitas vezes levamos anos para entender:
A vida não se sustenta pela nossa força.
Ela se sustenta pela graça.

Olhando para trás, hoje eu consigo enxergar algo que naquele momento ainda não era tão claro.
Talvez Deus não estivesse apenas me ensinando uma lição.
Talvez Ele estivesse me protegendo de um ritmo que, mais cedo ou mais tarde, iria me quebrar de verdade.

Porque eu estava começando um novo ciclo.
Empresa nova.
Responsabilidades novas.
Pressões novas.
E já estava operando no modo que sempre me caracterizou:
Dando tudo de mim.

Mas viver constantemente no limite não é sustentável.
E às vezes Deus, em Sua misericórdia, faz algo que nós jamais faríamos por conta própria:
Ele nos para.

Não porque fracassamos.
Mas porque continuar naquele ritmo seria a verdadeira queda.


E eu pensei que estava segurando tudo.
Mas naquele quarto silencioso do CTI, Deus me mostrou uma verdade libertadora:
Não era eu que estava sustentando tudo.
Era Ele quem estava sustentando a mim.

E foi nesse lugar de dependência que algo dentro de mim foi realinhado.
Não apenas o meu corpo.
Mas o meu coração.

Porque fé não é apenas acreditar que Deus pode nos curar.
Às vezes fé é aprender a descansar.
A confiar que, mesmo quando paramos, Deus continua cuidando de tudo.

E talvez o maior milagre daqueles dias não tenha sido apenas a restauração da minha saúde.
Talvez tenha sido a lembrança de que eu não preciso ser suficiente.
Porque Deus já é.

Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus.”
— Salmos 46:10

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

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