Série: “Cartas para a menina que eu fui”
Você tinha medo do escuro.
Mas hoje eu sei…
Não era do escuro que você tinha medo.
Era do que ele despertava.
Era daquele silêncio enorme depois que a casa dormia.
Daquele teto encarado por horas.
Daquela sensação estranha no peito que você ainda não sabia nomear.
Era o vazio.
Era a agonia.
Era aquele desespero silencioso de sentir que alguma coisa faltava, mesmo sem saber exatamente o quê.
Você tinha pai.
Tinha mãe.
Tinha irmãos.
A casa existia.
A família existia.
A vida não era perfeita, mas também não parecia uma tragédia.
Era dura…
Às vezes faltava alguma coisa na cozinha.
Às vezes sobrava rigidez na voz do seu pai.
Às vezes faltava paciência no cansaço da sua mãe.
Às vezes a escola machucava mais do que deveria.
O bullying pesava mais do que você conseguia contar.
A solidão fazia mais barulho do que qualquer briga.
Você queria ter tido uma amiga.
Uma daquelas amizades simples, seguras, onde alguém escolhe ficar.
Mas quase sempre parecia que você estava do lado de fora da vida de todo mundo, assistindo pela janela.
E talvez por isso a noite fosse tão cruel.
Porque durante o dia ainda existia distração.
Movimento.
Ruído.
Gente.
Mas quando a luz apagava, não havia mais onde se esconder de si mesma.
E era ali que o medo chegava.
Você sempre precisava dormir com a porta aberta e alguma luz acesa.
Uma fresta.
Um sinal.
Uma garantia de que existia saída.
Porque no fundo, o que te apavorava não era a escuridão do quarto.
Era a sensação de estar sozinha dentro dela.
E quando isso não acontecia…
quando a porta fechava,
quando a luz apagava,
quando o silêncio engolia tudo…
você acordava desesperada.
O coração acelerado.
A respiração curta.
As mãos tateando no escuro.
Procurando a porta.
Procurando uma saída.
Procurando qualquer coisa que dissesse:
Você não está presa.
Mas parecia que ela sumia.
Como se a porta deixasse de existir.
Como se o quarto virasse um labirinto.
Como se o abandono tivesse forma.
E ninguém via.
Porque era difícil explicar.
Como contar que o medo não era de monstros, mas de um vazio?
Como dizer que a maior assombração era sentir que ninguém realmente alcançava aquele lugar dentro de você?
Então você só sentia.
Sozinha.
Em silêncio.
Como quase tudo naquela época.
E sabe o que é mais cruel?
Crianças não sabem dizer “estou me sentindo emocionalmente abandonada.”
Elas só dizem: “não apaga a luz.”
E talvez ninguém tenha entendido isso.
Talvez achassem que era manha.
Sensibilidade demais.
Drama infantil.
Mas não era.
Era uma menina tentando lutar contra a sensação de desaparecer.
Era uma criança pedindo presença sem saber usar essa palavra.
Era alguém dizendo “fica comigo”, mesmo quando só conseguia pedir “deixa a porta aberta.”
Hoje eu olho pra você e entendo.
Entendo aquele medo.
Entendo aquela angústia.
Entendo por que o escuro parecia tão ameaçador.
Porque ele fazia você encarar tudo aquilo que passava o dia tentando esquecer.
A rejeição.
A solidão.
O medo de não ser escolhida.
O medo de ser esquecida.
O medo de não ser suficiente
nem para ser amada,
nem para ser lembrada.
E eu queria tanto voltar lá.
Naquela menina pequena,
naquela cama,
naquele quarto,
naquela noite…
Eu queria sentar ao seu lado e dizer baixinho:
A porta ainda está aqui.
Você não está presa.
Você não foi esquecida.
Você não está sozinha.
Mesmo quando parece silêncio, há presença.
Mesmo quando parece abandono, há cuidado.
Mesmo quando parece escuro, há alguém velando seu sono.
Você não sabia ainda, mas Deus já estava naquele quarto.
Na fresta da porta.
Na luz acesa do corredor.
Na respiração tentando se acalmar.
Na mão invisível que te sustentava
quando ninguém mais via.
Ele estava ali.
E talvez por isso você tenha sobrevivido a tantas noites.
Porque o abandono que você sentia nunca foi maior do que a presença que te guardava.
Hoje, adulta, você ainda sente medo às vezes.
Não mais do escuro do quarto, mas dos silêncios da vida.
Dos recomeços.
Das despedidas.
Das ausências.
Das portas que se fecham.
Mas agora você sabe:
Nem toda noite escura significa abandono.
Às vezes é só Deus ensinando que a luz também mora dentro.
E que portas não desaparecem.
Só existem travessias que a gente ainda não aprendeu a fazer.
Então dorme, minha menina.
Pode descansar.
A porta está aberta.
A luz ainda está acesa.
E você nunca mais vai precisar atravessar a escuridão sozinha.
“Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque Tu estás comigo.”
— Salmos 23:4