Capítulo 126 — Carta para a menina que confundiu carência com amor

Série: “Cartas para a menina que eu fui”

Você cresceu.
Ou pelo menos achava que sim.

Porque existe uma fase cruel na vida em que a gente ainda é menina demais para entender o mundo,
mas adulta demais para continuar sendo tratada como criança.

E é justamente aí que a confusão começa.

Você carregava feridas que ninguém via.
A rejeição.
O medo do abandono.
A necessidade de ser escolhida.
A sensação constante de não ser suficiente.

E então chegou a adolescência — essa fase onde tudo parece urgente, tudo parece eterno.
E qualquer migalha de atenção parece amor.

Mas antes mesmo de viver qualquer romance, você já amava a ideia dele.

Você escrevia poesias.
Cartas para o seu futuro amor.
Cartas para o seu futuro marido.
Cartas para alguém que talvez nem existisse ainda, mas que, na sua cabeça, já tinha nome, rosto e destino.

Você sonhava muito.
Imaginava muito.

Tinha um coração absurdamente apaixonado pela possibilidade do amor.

Enquanto muita gente vivia a adolescência como fase, você vivia como roteiro.

Queria um amor bonito.
Profundo.
Leal.
Daqueles que enxergam alma antes de aparência.

Você queria que alguém olhasse pra você e se apaixonasse pelo seu coração.
Pela sua intensidade.
Pela sua entrega.
Pela forma como você sentia tudo demais.

Mas a adolescência nem sempre é gentil com meninas assim.

Porque enquanto você escrevia cartas de amor,
muitos meninos estavam mais interessados nas meninas de silhueta marcada,
nas que já pareciam mulheres antes da hora, nas que chamavam atenção mais rápido.

E isso doía.
Porque você demorou a florescer nesse lugar.

Apesar de sempre ter sido grande, você ainda carregava traços de menina
quando o mundo parecia exigir pressa para virar mulher.

Seu corpo chegou depois.
Seu coração, cedo demais.

E isso criava uma frustração silenciosa.
Você se perguntava se havia algo errado.

Se talvez fosse bonita de menos.
Desejável de menos.
Interessante de menos.

Porque parecia que ninguém olhava para aquilo que você tinha de mais precioso.

Seu coração.
Sua profundidade.
Sua capacidade absurda de amar.

E a verdade cruel é que, na adolescência, o amor costuma ser raso e barulhento.
Ele escolhe pela vitrine, não pela estrutura.
Pela aparência, não pela permanência.

E para quem ama com profundidade, isso machuca.
Porque você não queria só ser notada.
Você queria ser vista.
De verdade.

Você olhava para as outras meninas…
As mais bonitas.
As mais desejadas.
As mais disputadas.
As que pareciam sempre ser escolhidas primeiro.

Os meninos também olhavam para elas.
Falavam delas.
Queriam estar perto delas.

E você se perguntava, em silêncio:

“Por que comigo não?”

“O que falta em mim?”

“O que eu preciso fazer para ser amada assim também?”

E sem perceber, você começou a se moldar.
Tentando caber.
Tentando pertencer.
Tentando vestir um personagem que talvez fosse mais fácil de amar.

Você tentou ser menos intensa.
Menos sensível.
Menos estranha.
Menos você.

Porque parecia que ser você nunca tinha sido suficiente.

Então começou a busca…

A necessidade de aprovação.
A vontade de ser validada.
O desejo quase desesperado de finalmente ser escolhida por alguém.

Porque talvez, se alguém te amasse romanticamente, isso curaria tudo.

Talvez um namoro resolvesse.
Talvez um romance preenchesse.
Talvez um “eu gosto de você” consertasse anos inteiros de vazio.

Mas ninguém te contou que carência usa fantasia de amor.

E ela engana bonito.
Ela faz a gente chamar migalha de banquete.
Faz a gente romantizar ausência.
Faz a gente aceitar quase amor como se fosse milagre.

E na adolescência, a gente vive um drama mexicano emocional.

Tudo é extremo.
Tudo é intenso.
Tudo parece o fim do mundo.

Uma mensagem não respondida vira rejeição.
Um olhar vira promessa.
Um quase vira esperança.

E às vezes nem havia amor ali.
Só um menino com hormônios aflorados.
Só alguém querendo brincar.
Só gente imatura tentando existir.

Mas você…
Você estava procurando cura.

E quem procura cura às vezes se apega até ao que machuca.

Você queria amor e acabava aceitando confusão.
Queria segurança e encontrava ansiedade.
Queria ser escolhida e acabava se perdendo de si mesma.

E quantas vezes você chamou de amor aquilo que era só medo de ficar sozinha?
Quantas vezes insistiu porque acreditava que ser deixada confirmaria tudo aquilo que você já temia sobre si?

Que não era bonita o suficiente.
Boa o suficiente.
Interessante o suficiente.

Então você se esforçava mais.
Dava mais.
Tolerava mais.
Silenciava mais.

Porque no fundo, aquela adolescente ainda era a mesma menina tentando merecer amor.

Só que agora ela procurava isso nos braços errados.

E o coração foi se partindo aos poucos.
Não de uma vez.
Mas em pequenas despedidas.
Pequenas rejeições.
Pequenas decepções.

Até que você começou a acreditar que amar era isso mesmo:
Dor, insegurança, ansiedade e espera.

Mas não era.
Nunca foi.

O problema é que ninguém tinha te ensinado a diferença entre ser amada e ser aceita por conveniência.
Entre amor e validação emocional.
Entre presença e dependência.

E então Deus… começou a mostrar que esse vazio dentro de você
Não tinha o tamanho de um relacionamento.
Não tinha o tamanho de um homem.
Não tinha o tamanho de um romance adolescente.

Tinha o tamanho exato dEle.

Porque há espaços que nenhuma mão humana alcança.
Feridas que nenhum beijo cura.
Ausências que nenhum namoro preenche.

Existe uma fome na alma que só o céu alimenta.

E até entender isso, a gente insiste em pedir para pessoas o que só Deus pode oferecer.

Pertencimento.
Identidade.
Valor.
Amor sem medo.

Hoje eu olho para você, adolescente e não sinto vergonha.
Sinto compaixão.

Porque você não era fútil.
Nem dramática.
Nem desesperada demais.

Você só estava tentando ser amada com as ferramentas que tinha.

Você procurava no amor humano o abraço que sua alma realmente precisava.

E eu queria sentar ao seu lado, naquela fase confusa,
naquela versão sua que achava que precisava ser escolhida por alguém para finalmente se sentir suficiente.

E eu diria:

Você não precisa diminuir sua essência para caber no desejo de ninguém.

Você não precisa ser escolhida por um menino para confirmar seu valor.

Você não precisa chamar carência de destino.
Nem confusão de amor.
Nem insistência de propósito.

Você não precisa ser salva por alguém.
Você precisa ser encontrada por Deus.

Porque quando Ele te chama de filha, todo o resto perde o poder de definir quem você é.

E aí, finalmente, você para de implorar por amor e começa a reconhecer quando ele realmente existe.

Porque amor não confunde.
Não manipula.
Não diminui.
Não faz você implorar por migalhas.

Amor cuida.
Amor permanece.
Amor traz paz.

E o primeiro amor verdadeiro que você precisava conhecer não vinha de um romance.
Vinha do Pai.

Então respira, minha menina.
Nem todo vazio é falta de alguém.

Às vezes é só saudade de Deus.

E quando Ele ocupa esse lugar, você descobre:

Nunca foi sobre encontrar alguém para te completar.
Sempre foi sobre voltar para casa.

“Levantar-me-ei e irei ter com meu pai…”
— Lucas 15:18

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

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