Capítulo 136 — Quando deixei de procurar as mãos de Deus e comecei a procurar Seu rosto

Há uma fase da caminhada cristã em que passamos a maior parte do tempo pedindo.

Pedimos respostas.
Pedimos portas abertas.
Pedimos cura.
Pedimos provisão.
Pedimos direção.

E Deus, em Sua infinita bondade, nos atende muitas vezes.

Ele nos resgata dos poços que cavamos.
Nos levanta dos desertos que atravessamos.
Nos sustenta quando nossas forças acabam.
Nos consola quando o coração se parte.

Mas existe um lugar mais profundo.
Um lugar onde a maior bênção deixa de ser aquilo que Deus faz.
E passa a ser quem Deus é.

Eu não sei exatamente quando isso aconteceu comigo.

Talvez tenha sido depois de tantas quedas.
Talvez depois de tantas renúncias.
Talvez depois de descobrir, da forma mais dolorosa possível,
que não existe nada neste mundo capaz de preencher o espaço que pertence a Deus.

Porque eu procurei…

Procurei em pessoas.
Procurei em relacionamentos.
Procurei em sonhos.
Procurei em planos.
Procurei em expectativas.

E quanto mais eu caminhava, mais percebia que tudo aquilo que parecia tão grande se tornava pequeno quando comparado à presença dEle.

Hoje, quando me prostro para orar com o rosto no chão, não consigo deixar de pensar em quem eu era.

Na menina perdida.
Na mulher ferida.
Na pessoa que caminhou por lugares tão escuros que acreditou que jamais encontraria a luz novamente.

E então olho para tudo o que Deus fez.
Para tudo o que Ele restaurou.
Para todas as vezes em que Ele me sustentou quando eu mesma já havia desistido de mim.

E só consigo pensar em uma coisa:
Eu não sou nada sem Ele.

E, curiosamente, essa constatação não me diminui.
Ela me liberta.

Porque o Evangelho nunca foi sobre descobrir o quanto eu sou grande.
Foi sobre descobrir o quanto Deus é.

Talvez seja por isso que homens e mulheres que tiveram encontros reais com Deus nunca saíram desses encontros se sentindo maiores.
Saíram menores.

Quando Isaías contemplou a glória do Senhor assentado em Seu alto e sublime trono, ele não disse:
“Agora sei quem eu sou.”

Ele caiu e declarou:
“Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros.” (Isaías 6:5)

Quando Jó finalmente encontrou Deus em meio ao seu sofrimento, sua conclusão não foi uma exaltação pessoal.
Foi rendição.
“Antes eu Te conhecia só de ouvir falar, mas agora os meus olhos Te veem. Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza.” (Jó 42:5-6)

A presença de Deus tem esse efeito.

Ela não destrói nossa identidade.
Ela destrói nossa ilusão de grandeza.

E talvez ninguém represente isso melhor do que Paulo.
É curioso observar sua trajetória.

Em um momento ele se apresenta como o menor dos apóstolos.
“Porque eu sou o menor dos apóstolos.” (1 Coríntios 15:9)

Depois, alguns anos mais tarde, ele se chama o menor de todos os santos.
“A mim, o menor de todos os santos…” (Efésios 3:8)

E próximo ao fim da vida, já amadurecido, já experimentado, já profundamente transformado, ele escreve:
“Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.” (1 Timóteo 1:15)

Que caminho estranho aos olhos humanos…
Quanto mais crescia espiritualmente, menor se tornava aos próprios olhos.

Esse homem passou a vida diminuindo.
Porque quanto mais perto chegava da luz, mais enxergava as sombras que ainda existiam dentro dele.

E não porque vivia em condenação.
Mas porque a santidade de Deus o constrangia.

E enquanto nós nos esforçamos para parecer santos diante dos homens,
Paulo estava ocupado demais contemplando a perfeição de Cristo para se impressionar consigo mesmo.

Talvez seja por isso que ele se chamava escravo de Cristo.
Não servo.
Não colaborador.
Não parceiro.

Escravo.

A palavra usada por ele era “doulos”.
“Paulo, servo [doulos] de Cristo Jesus…” (Romanos 1:1)
Alguém que pertence completamente ao seu senhor.

E durante muito tempo eu não compreendi a beleza dessa expressão.
Porque a palavra escravo nos causa desconforto.
Mas então percebi que Paulo não estava falando de alguém acorrentado pela força.
Estava falando de alguém rendido pelo amor.

E existe uma diferença enorme.

O escravo comum não tem escolha.
Mas Paulo tinha.

Ele poderia ter voltado.
Poderia ter abandonado tudo.
Poderia ter escolhido uma vida mais fácil.

Mas depois de encontrar Jesus, qualquer outro caminho se tornou pequeno demais.

É como Pedro quando olha para Cristo e diz:
“Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna.”

Essa talvez seja uma das declarações mais bonitas da Bíblia.

Porque Pedro não diz que entendeu tudo.
Não diz que está confortável.
Não diz que a caminhada é fácil.

Ele apenas reconhece que já viu o suficiente para saber que não existe outro lugar para onde ir.
E eu acho que é exatamente isso que acontece quando finalmente encontramos Jesus.

Não aquele Jesus das músicas.
Não aquele Jesus das frases prontas.
Não aquele Jesus que usamos para resolver problemas.

Mas o Jesus real.
O Cristo vivo.
O Filho de Deus.
Aquele diante de quem todo joelho se dobrará

Quando nossos olhos finalmente encontram os dEle, algo muda para sempre.

Continuamos tendo livre-arbítrio.
Mas já não queremos mais as mesmas coisas.
Já não buscamos as mesmas fontes.
Já não nos alimentamos das mesmas distrações.

Porque o coração finalmente encontrou aquilo para o que foi criado.

E é nesse ponto que a obediência deixa de parecer um fardo.
As renúncias deixam de parecer castigos.
O jejum deixa de parecer sofrimento.
E o sacrifício deixa de parecer perda.

Tudo se transforma em resposta.

Minhas renúncias não são dores que me torturam.
São entregas que O celebram.

Minhas obediências não são fardos que eu carrego.
São alabastros que eu quebro.

Porque quando compreendemos o que Cristo fez na cruz,
percebemos que Ele não morreu para que tivéssemos uma vida confortável.

Ele morreu para que tivéssemos vida eterna.

E o Evangelho não é uma promessa de conforto.

É um chamado à rendição.
“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me.” (Lucas 9:23)

E seguir Jesus nunca foi sobre adicionar Deus à nossa agenda.
Foi sobre colocá-Lo no centro dela.

E quanto mais caminhamos com Ele, menos tempo temos para atirar pedras.
Porque estamos ocupados demais lavando pés.

Como Jesus disse:
“Se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros.” (João 13:14)

Talvez por isso eu tenha aprendido que a verdadeira maturidade espiritual não é vencer discussões.
É servir.

Não é parecer santo.
É amar.

Não é encontrar defeitos nos outros.
É permitir que Deus continue tratando os meus.

E também não é passar a vida inteira lutando contra o diabo.
É viver de forma que ele não encontre espaço para permanecer.

Como Paulo escreveu:
“Não deis lugar ao diabo.” (Efésios 4:27)

Porque no fim, o Evangelho é um convite para morrer.

Morrer para o ego.
Morrer para o orgulho.
Morrer para os ídolos.
Morrer para nós mesmos.

E, paradoxalmente, é justamente nessa morte que encontramos a verdadeira vida.

Foi isso que comecei a perceber nos últimos anos.
Deus começou a tocar áreas que eu nunca imaginei entregar.
Mesas das quais eu não queria me levantar.
Sonhos que eu não queria soltar.
Desejos que eu não queria render.

Porque existe uma diferença entre entregar aquilo que nunca quisemos e entregar aquilo que sempre sonhamos.
E talvez tenha sido nesse lugar que Deus mais trabalhou meu coração.

Eu sempre sonhei com um relacionamento.
Sempre sonhei com casamento.
Sempre sonhei em construir uma família.

E justamente por ser um desejo legítimo, ele se tornou um dos lugares mais vulneráveis da minha vida.
Porque o inimigo raramente tenta nos destruir através daquilo que odiamos.
Normalmente ele usa aquilo que mais desejamos.

Foi nesse lugar que muitas vezes me distraí.
Foi nesse lugar que muitas vezes tropecei.
Foi nesse lugar que muitas vezes dei espaço para coisas que me afastavam do propósito.

Até perceber que Deus estava me chamando para algo mais profundo.

Não para abandonar sonhos.
Mas para colocá-los no altar.

Não para desistir do amor.
Mas para amar primeiro Aquele que é a própria fonte do amor.

Por isso, eu decidi parar.
Silenciar.
Me afastar de qualquer distração…
Principalmente, de um relacionamento.

Não como punição.
Não como barganha.
Não para provar algo.

Mas para ouvir a voz de Deus com mais clareza.

Porque há momentos em que Deus não está pedindo mais uma oração.
Está pedindo mais espaço.
Mais entrega.
Mais disponibilidade.
Mais altar.

E foi então que Ester passou a fazer sentido para mim.
Porque ela não era apenas uma rainha.
Era uma órfã que precisou aprender quem era.

Seu problema nunca foi falta de posição.
Ela já ocupava o trono.
Seu problema era acreditar que era capaz de ocupar o lugar para o qual Deus a havia levado.

Talvez muitos de nós sejamos assim.
Vivemos como órfãos mesmo depois de sermos chamados filhos.
Vivemos escondidos mesmo depois de recebermos autoridade.
Vivemos dominados pelo medo mesmo depois de recebermos um propósito.

Mas Mardoqueu faz uma pergunta que atravessa os séculos:
“E quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino?”

Não era sobre a coroa.
Era sobre o propósito.

Não era sobre o privilégio.
Era sobre a responsabilidade.

Não era sobre Ester.
Era sobre aquilo que Deus queria fazer através dela.

E talvez essa seja a pergunta que Deus faz a cada um de nós.

Quem sabe se não foi para este tempo?
Quem sabe se não foram essas cicatrizes?
Quem sabe se não foram essas lágrimas?
Quem sabe se não foram essas perdas?
Quem sabe se não foram esses desertos?
Quem sabe se não foi toda a sua história que o trouxe exatamente até aqui?

Porque Deus não desperdiça nada.
Nem as quedas.
Nem as dores.
Nem os fracassos.
Nem os anos perdidos.

Tudo passa pelas mãos dEle e se transforma em testemunho.

Hoje eu entendo que a maturidade cristã não é chegar ao ponto de se sentir forte.
É chegar ao ponto de reconhecer que sem Cristo não somos nada.
Mas também compreender que, apesar disso, Ele nos escolheu.

Escolheu nos amar.
Escolheu nos chamar.
Escolheu nos usar.

E talvez essa seja a maior loucura do Evangelho.

O Deus que não precisa de mim decidiu me querer perto.
O Deus que poderia fazer tudo sozinho decidiu me incluir.
O Deus que poderia usar qualquer pessoa decidiu me chamar pelo nome.

Por isso eu continuo caminhando.

Não porque sei tudo.
Mas porque descobri que nunca saberei o suficiente.

Não porque sou forte.
Mas porque Sua graça me sustenta.

Não porque sou digna.
Mas porque Seu amor me alcançou.

E se existe algo que aprendi olhando para a cruz, para Paulo e para Ester, é isto:
Quando finalmente encontramos Cristo, deixamos de perguntar o que ainda podemos receber.
E passamos a perguntar o que ainda podemos entregar.

Porque quem encontrou o Tesouro já não negocia com as moedas.
Quem encontrou a Fonte já não vive correndo atrás de poças.
Quem encontrou Jesus percebe que não existe nada neste mundo capaz de se comparar à beleza de permanecer nEle.

E talvez seja por isso que Paulo conseguiu escrever sobre alegria de dentro de uma prisão.
Não de uma prisão confortável.
Mas de um lugar escuro, frio, úmido e cercado por correntes.

Enquanto muitos de nós perderíamos a esperança, ele escrevia sobre contentamento.
Enquanto muitos reclamariam das circunstâncias, ele falava sobre Cristo.
Porque a alegria de Paulo nunca esteve nas circunstâncias.
Estava em Jesus.

E talvez seja isso que estou aprendendo agora.

Existe um lugar na presença de Deus onde as perdas já não parecem perdas.
Onde as renúncias já não parecem sacrifícios.
Onde a obediência já não parece um peso.

Porque quem encontrou Jesus descobre que Ele próprio é a recompensa.

Por isso Paulo escreveu:

“Mas o que para mim era lucro, passei a considerar perda por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor.” (Filipenses 3:7-8)

E talvez seja exatamente isso.
Quanto mais me aproximo dEle, menos quero as coisas que Suas mãos podem me dar.
Quero apenas permanecer diante do Seu rosto.

Que eu diminua.
Que Ele cresça.
Que eu me esqueça de mim.
Que eu me lembre dEle.
Que eu lave pés em vez de atirar pedras.
Que eu quebre alabastros em vez de acumular reservas.
Que eu viva de forma que o inimigo não encontre legalidade.

E que, quando chegar a hora de me posicionar diante do propósito, eu tenha coragem suficiente para dizer como Ester:
“Se perecer, pereci.”

Porque aquele que um dia encontrou os olhos de Cristo jamais volta a ser o mesmo.

“Mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.” (Filipenses 3:13-14)

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

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