Há semanas que passam.
E há semanas que atravessam a gente.
Esta foi uma delas.
Começou com uma palavra que eu precisava preparar e terminou com essa mesma palavra me sustentando quando eu já não tinha certeza de quase nada.
Na terça-feira, recebi um convite para falar sobre como confiar no Senhor em meio às crises.
E escolhi Marcos 4:35–41.
Jesus entra no barco com os discípulos e diz:
“Passemos para a outra margem.”
Eles obedecem.
Entram no barco.
Começam a travessia.
E de repente, uma tempestade vem.
E enquanto preparava aquela mensagem, uma verdade me chamou atenção:
Os discípulos não estavam naquela tempestade porque haviam tomado uma decisão errada.
Eles estavam exatamente onde Jesus havia mandado que estivessem.
Isso desmonta uma conta errada que fazemos com frequência:
“Se estou obedecendo, tudo deveria estar dando certo”.
Mas nem toda tempestade é consequência de um caminho errado.
Às vezes, a tempestade nos encontra exatamente no caminho da obediência.
Estar com Jesus nunca foi garantia de ausência de tempestades.
A promessa sempre foi Sua presença durante elas.
Na terça-feira, escrevi isso.
E na quarta-feira, eu precisei acreditar nisso.
Recebi uma notícia dura no trabalho.
Daquelas que não batem educadamente à porta antes de entrar.
Simplesmente chegam, sentam no meio da sala e bagunçam tudo aquilo que, até cinco minutos antes, parecia estar em seu devido lugar.
E eu sabia versículos.
Sabia o texto que ministraria.
Sabia que Deus era soberano.
Sabia que Ele cuidava de mim.
O problema é que existe uma distância enorme entre saber uma verdade quando o mar está calmo e precisar se agarrar a ela enquanto o barco balança.
E foi aí que percebi:
Eu não estava mais preparando uma mensagem sobre a tempestade.
Eu estava dentro dela.
De repente, Marcos 4 deixou de ser apenas uma passagem bíblica.
Eu entendia a água entrando no barco.
Entendia o medo.
Entendia a pergunta dos discípulos:
“Mestre, não te importa que pereçamos?”
Porque crises têm esse poder estranho de alterar nossa percepção.
Primeiro perguntamos:
“Como vou resolver isso?”
Depois:
“Como isso vai terminar?”
Até que, se não vigiarmos, a pergunta muda completamente:
“Deus, o Senhor ainda está aqui?”
A tempestade começa do lado de fora e silenciosamente, tenta se mudar para dentro.
Ela mexe com as circunstâncias, mas também tenta mexer com aquilo que acreditamos sobre Deus.
Será que Ele viu?
Será que ouviu?
Será que se esqueceu?
Será que continua no controle?
Foi então que outra verdade começou a fazer sentido para mim:
Eu precisava escolher do que alimentaria minha memória.
Porque a memória também é território de batalha.
Podemos trazer à memória tudo o que perdemos.
Tudo o que deu errado.
Tudo o que poderia acontecer.
Todas as possibilidades ruins.
Todas as perguntas sem resposta.
Ou podemos fazer o que Jeremias fez em meio às ruínas:
Trazer à memória o que pode dar esperança.
Não é negar a realidade.
É decidir que a realidade não terá a palavra final sobre aquilo que eu creio.
Jeremias não disse: “Vou fingir que está tudo bem.”
Ele disse, em outras palavras:
“Em meio a tudo o que está diante dos meus olhos, eu escolho me lembrar de algo maior.”
E talvez essa tenha sido uma das maiores lições desta semana para mim.
De que a fé não é amnésia da dor.
Fé é memória da fidelidade de Deus.
É olhar para uma situação que ainda não mudou e lembrar:
Deus já me sustentou antes.
Deus já abriu caminhos antes.
Deus já me encontrou em lugares onde ninguém mais conseguiria chegar.
Deus continua sendo Deus mesmo quando eu não consigo entender o que Ele está fazendo.
E, principalmente:
Mesmo em meio as tempestades, Jesus continua no barco.
Foi quando uma frase me atravessou:
“Pouco se fala sobre o quanto a presença de Deus resolve coisas que nenhum conselho resolve.”
E eu entendi.
Há momentos em que não precisamos de mais uma explicação.
Nem de alguém montando dez cenários possíveis.
Nem de respostas rápidas para perguntas que ainda não têm resposta.
Há dores para as quais nenhum argumento é suficiente.
Mas existe uma Presença.
E quando tudo dentro de nós está fazendo barulho, a presença de Deus consegue alcançar lugares onde palavras humanas simplesmente não chegam.
Talvez o problema ainda esteja lá.
Talvez o medo continue existindo.
Talvez a oração não tenha sido atendida.
Talvez a resposta ainda não tenha chegado.
E o futuro continue nebuloso…
Mas existe uma diferença enorme entre atravessar uma tempestade tentando controlar tudo e atravessá-la sabendo quem está dentro do barco com você.
E então aconteceu algo que tornou essa semana ainda mais simbólica.
Eu subi para ministrar.
Eu, que ainda tenho medo de palco.
Eu, cujas mãos tremem.
Eu, que às vezes pareço tão comunicativa que talvez ninguém imagine a guerra que acontece por dentro antes de pegar um microfone.
E ali estava eu.
Com uma tempestade particular acontecendo e falando publicamente sobre confiança.
Quase irônico.
Quase.
Porque olhando agora, percebo que Deus estava me ensinando outra coisa.
Ele nunca esperou minhas mãos pararem de tremer para me chamar.
Nunca esperou que eu me sentisse completamente pronta.
Nunca exigiu ausência de medo para pedir obediência.
E a Sua Palavra diz:
“Porque Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de equilíbrio.”
— 2 Timóteo 1:7
E coragem não é chegar ao lugar onde nada mais nos assusta.
Talvez coragem seja simplesmente decidir:
“O medo pode vir comigo. Só não será ele quem decidirá para onde eu vou.”
Então eu fui.
Com as mãos trêmulas.
Com as pernas bambas.
Com o coração atravessando sua própria tempestade.
E uma resposta:
Eis-me aqui.
Talvez seja isso que Deus esteja me ensinando agora.
Eu passei muito tempo imaginando que a maturidade espiritual seria chegar ao ponto em que determinadas coisas não me abalariam mais.
Hoje penso diferente.
Talvez maturidade seja ser abalada e ainda saber para onde correr.
É chorar e continuar crendo.
É não entender e continuar obedecendo.
É sentir medo e continuar dizendo “eis-me aqui”.
É olhar para a água subindo dentro do barco e se recusar a concluir que Deus deixou de estar presente só porque ainda não acalmou o mar.
Porque algumas vezes Ele muda a circunstância.
Outras vezes, antes de mudar a circunstância, Ele muda a maneira como nós a atravessamos.
E talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo comigo agora.
Enquanto escrevo estas palavras, nem todas as respostas chegaram.
Meu mar não está completamente calmo.
Eu ainda não consigo enxergar perfeitamente a outra margem.
E curiosamente, isso tornou esta experiência ainda mais verdadeira.
Porque eu não estou escrevendo depois do milagre para dizer que Deus foi fiel.
Estou escrevendo no meio do caminho para dizer que Ele continua sendo.
E eu não sei como tudo terminará.
Mas estou aprendendo que confiança nunca foi ter conhecimento antecipado do final.
Confiar é não saber o que acontecerá amanhã e ainda assim, saber quem estará comigo quando o amanhã chegar.
Por isso, hoje, quando minha mente quiser revisitar a notícia, calcular riscos, imaginar cenários e ensaiar futuros que nem chegaram, eu quero fazer outra coisa.
Quero trazer à memória.
Trazer à memória as vezes em que achei que não conseguiria e consegui.
As portas que Deus abriu.
As portas que Ele fechou e que, mais tarde, entendi por quê.
Os lugares dos quais Ele me tirou.
Os lugares aos quais Ele me levou.
As orações respondidas.
Os livramentos que percebi.
E até aqueles que talvez nunca tenha percebido.
Quero me lembrar de quem Ele foi para mim quando tudo estava bem, para não esquecer quem Ele é quando tudo parece incerto.
Porque a tempestade não redefine o caráter de Deus.
E o silêncio de Deus não significa Sua ausência.
Então, se você chegou até este texto vivendo a sua própria tempestade, talvez eu não tenha uma resposta para te dar.
Na verdade, provavelmente não tenho.
Mas posso dividir com você aquilo que estou repetindo para mim mesma:
Não permita que aquilo que aconteceu faça você esquecer tudo aquilo que Deus já fez.
Não deixe uma notícia apagar uma história inteira de fidelidade.
Não transforme um capítulo difícil em conclusão de um livro que Deus ainda está escrevendo.
Não permita que o tamanho das ondas te faça esquecer quem está no barco com você.
E quando não conseguir enxergar a outra margem, olhe novamente para dentro do barco.
Ele ainda está lá.
E talvez eu não consiga enxergar a outra margem.
E você também não.
Mas Jesus enxerga.
E se Ele está no barco, isso basta para continuarmos navegando.
E quando o medo tentar me contar como essa história termina, vou responder trazendo à memória como Deus escreveu todos os capítulos anteriores.
Porque existem dias em que esperança não é aquilo que sentimos.
É aquilo que escolhemos lembrar.
“Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.”
— Lamentações 3:21