Capítulo 108 — Quando Deus reescreve o que parecia errado

“Nem todo encontro fora do tempo é desperdício. Alguns são ensaio para o propósito.”

Há encontros que, quando acontecem, parecem confusos demais para serem de Deus.
Chegam fora de hora, fora de lugar, fora do nosso estado emocional e fora da nossa maturidade.

E à primeira vista, tudo indica que deram errado.
Mas o Reino nunca se move pela aparência 
Ele se move pelo propósito.

Quatro anos atrás, nós nos encontramos num tempo em que nada em mim estava pronto.
Minha mente aprendia a sobreviver depois de afundar.
Minha fé ainda buscava chão.
Minha vida era um canteiro de obras aberto, barulhento e instável.
E amor, ali, não seria aliança, seria anestesia.

Hoje eu entendo: Deus não estava nos unindo.
Ele estava nos apresentando.
Porque há encontros que não são convite para permanecer,
mas para que o futuro tenha memória.
E há pessoas que precisam nos conhecer cedo demais, não para ficar,
mas para que, quando o tempo certo chegar, o reencontro faça sentido.

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.”
(Eclesiastes 3:1)

E hoje eu entendo
Se aquele encontro não tivesse acontecido lá atrás, talvez jamais tivesse existido.
Nossas rotas não se cruzariam.
Não havia redes, algoritmos ou caminhos humanos possíveis para isso.

O reencontro só foi possível porque houve um registro no passado.
E Deus usou o tempo errado como ponte para o tempo certo.

Nesse intervalo, a vida nos feriu, mas também nos tratou.
Perdemos pessoas, versões antigas de nós mesmos, ilusões, defesas que já não se sustentavam.
Fomos atravessados por dores que não escolhemos, mas que nos obrigaram a crescer.
Aprendemos, caímos, erramos, fomos confrontados, fomos lapidados.

Não ficamos prontos.
Ficamos responsáveis.

E foi ali que compreendi algo ainda mais profundo:
Deus não apaga o passado, Ele o converte.
Assim como Saulo precisou cair, ser confrontado e ficar cego por um tempo para então se tornar Paulo,
há versões nossas que também só existem para morrer no caminho.
Não porque eram más, mas porque já não servem ao propósito futuro.

E então eu entendi, a conversão nunca é apenas espiritual.
Ela é comportamental.
Relacional.
Consciente.

Paulo não surgiu pronto.
Ele surgiu em processo.
Com zelo redirecionado.
Com força agora submetida.
Com a mesma intensidade, mas, finalmente, a serviço do Reino.

“Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi em vão.”
(1 Coríntios 15:10)

E então tudo mudou de lugar dentro de mim.
Não foi euforia.
Não foi pressa.
Foi paz.

Aquela paz que não empurra, não promete, não exige.
A paz que apenas confirma.

E eu entendi: Deus não estava escrevendo uma história romântica.
Ele estava costurando chamados.

Porque eu sempre soube que minha voz seria para mulheres feridas.
Mas temi como isso coexistiria com um relacionamento.
Como conciliar missão e aliança sem anular identidades?

E Deus respondeu do jeito d’Ele
Não anulando missões, mas entrelaçando propósitos.

“Porque somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras,
as quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas.”

(Efésios 2:10)

Não para competir.
Não para um diminuir e o outro crescer.
Mas para que, juntos, o testemunho fosse mais completo.

Uma voz acolhendo quem sangrou.
Outra confrontando quem feriu.
O mesmo tema.
Ângulos diferentes.
Um Reino inteiro sendo alcançado.

E então fez sentido.
O passado.
O erro.
A dor.
O intervalo.
Nada foi desperdício.

“Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” (Romanos 8:28)

E o que parecia torto estava sendo alinhado.
O que parecia errado estava sendo preparado.
E o que parecia fim era só ensaio.

Não para uma história perfeita.
Mas para uma construção verdadeira.
Firmada não na emoção, mas na obediência.
Não no desejo, mas no propósito.
Não no imediatismo, mas no Reino.

“Confia ao Senhor as tuas obras, e os teus pensamentos serão estabelecidos.”
(Provérbios 16:3)

E se você, que me lê agora, se reconhece nessa história
Se também já viveu um tempo em que tudo parecia fora do eixo, fora do plano
Saiba que Deus nunca perde o controle da narrativa.

Não importa o quão longe você tenha ido.
Não importa quantas escolhas equivocadas tenha feito.
O Deus que escreve propósitos é o mesmo que espera, de braços abertos, o retorno para casa.

“Vinde, então, e raciocinemos juntos, diz o Senhor; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata,
eles se tornarão brancos como a neve.” (Isaías 1:18)

Porque em Deus, ninguém está condenado a ser a pior versão de si mesmo.
Há sempre transformação disponível.
Há sempre recomeço possível.
Há sempre identidade sendo restaurada.

E quando entendemos quem somos n’Ele 
Filhos, filhas, herdeiros
E nos posicionamos a partir dessa verdade,
Deus passa a operar coisas que os nossos olhos naturais jamais imaginariam.

“Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor.”
(Isaías 55:8)

Nós, muitas vezes, julgamos o outro pelos excessos.
Mas todo excesso esconde uma falta.
E, na maioria das vezes, é a falta de Deus
Um vazio que nada neste mundo consegue preencher.
Mas quando entregamos nossas dores, nossos traumas e nosso passado nas mãos do Pai,
Ele não permite que isso permaneça como vergonha.

Ele transforma a ferida em óleo.
O erro em aprendizado.
A dor em autoridade espiritual.

“O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para levar boas-novas aos quebrantados.”
(Isaías 61:1)

E em Deus, deixamos de ser apenas vítimas, ou vilões da própria história.
Passamos a ser instrumentos.
Instrumentos nas mãos de um Deus que não desperdiça nada:
Nem encontros fora do tempo,
Nem histórias tortas,
Nem passados difíceis.

Porque quando tudo é colocado no altar, tudo coopera.
Tudo se redime.
Tudo encontra propósito.

E o que antes parecia errado
se transforma exatamente no caminho
pelo qual Deus decide se revelar.

“E vos darei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne.”
— Ezequiel 36:26

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

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