Capítulo 105 — O lugar onde Deus me encontrou em silêncio

“Há dores que não viram post. Viram altar.”

Esse é, até aqui, o capítulo mais difícil que eu já escrevi.
Porque ele não nasce de uma metáfora.
Ele nasce de uma cicatriz profunda e marcante.

Ele narra um fato acontecido há mais de seis anos e que, ainda assim, às vezes, parece que foi ontem.

Porque há coisas que o tempo não apaga.
Ele só empurra para dentro.
E o que a gente empurra…
Um dia volta como peso.

E eu aprendi que há capítulos que a gente não conta.
Não porque não existiram, mas porque existiram demais.
Doeram demais e marcaram demais.

E há dores que não foram feitas para o público.
Foram feitas para o silêncio.
Para o quarto fechado.
Para o altar.

E eu vivi um tempo em que minhas escolhas nasceram do medo.
Não de um medo pequeno…
Mas do medo que grita dentro de uma mulher que já caiu antes e não sabia se sobreviveria a outra queda.

Naquela época, eu estava frágil.
Recém-saída de ruínas.
Com o coração ainda tentando entender o que tinha sido perdido.

E então, a vida aconteceu de forma abrupta, confusa e humana.
E eu me vi diante de algo grande demais para carregar sozinha.

Eu não tinha clareza.
Eu tinha pânico.
Eu não tinha direção.
Eu tinha silêncio.

E então, eu fiz uma escolha que me atravessou.
Porque ela feria meus princípios, minhas convicções e a minha natureza.

Mas não foi só uma decisão.
Foi uma cicatriz.
E cicatrizes doem diferente.
Elas não sangram mais…
mas latejam na memória.

E por muito tempo, eu achei que Deus me olhava com decepção.
Como se o céu tivesse registrado meu erro com tinta permanente.

Eu carreguei essa culpa como quem carrega uma sentença.
E comecei a viver como se minha história tivesse um asterisco,
como se eu precisasse pagar por ter sido humana demais.

E o mais duro é que, por anos,
eu não percebi o quanto isso ainda me assombrava.
Eu seguia vivendo…
Mas com uma parte de mim presa.

Até que um dia, no secreto,
no escuro do meu quarto,
ajoelhada no meu tapetinho de oração…
Eu confessei.
Não como quem explica.
Mas como quem se rende.

Eu renunciei pecados antigos.
Alguns, nunca confessados.
Eu chorei verdades que nunca tinham saído em voz alta.

E ali, naquele lugar onde ninguém vê,
Deus me mostrou o tamanho do peso que eu carregava.
E eu só consegui me perdoar depois disso.

Porque eu percebi que a culpa não era só tristeza.
Era prisão.
Ela me impedia de viver plenamente o amor de Deus.
Ela me impedia de acreditar nos propósitos dEle para mim.
Como se eu tivesse que ser castigada antes de ser amada.

Mas Deus não é um juiz que quer nos condenar.
Ele é Pai.
E um Pai não trata feridas com acusação.
Ele trata com cura e restauração.

Mas eu demorei para entender que arrependimento não é voltar no tempo.
É voltar para Deus.

É dizer:
“Senhor, eu não sou orgulhosa… eu só estava com medo.”
“Eu não sou fria… eu só estava sozinha.”
“Eu não sou má… eu só estava quebrada.”

E foi ali que algo mudou.
Porque eu percebi:
A culpa me fazia olhar para trás como condenação.
Mas Deus me chamava para olhar para cima como redenção.

E então eu li uma frase que me atravessou como verdade, ela dizia:

“Se quiser me encontrar no meu passado, eu não estou mais lá, mas as marcas dele estão em mim…
E às vezes me esbofeteiam, lembrando-me todos os dias que, se ainda estou de pé, é porque Deus foi infinitamente misericordioso comigo.”

E talvez seja isso.
Eu não estou mais lá.
Mas as marcas ainda falam.
Só que elas não falam mais como sentença.
Elas falam como lembrança.
Lembrança de que eu sobrevivi.
Lembrança de que Deus me sustentou
quando eu mesma não conseguia me sustentar.

Enquanto o inimigo me dizia:
“Você será punida.”

O Evangelho me lembrava:
“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.”
Romanos 8:1

E eu finalmente compreendi:
Deus não me perdoou porque eu merecia.
Deus me perdoou porque Ele é bom.
E a misericórdia dEle não é teoria.
É um lugar.
Um lugar onde mulheres cansadas podem descansar.
Onde cicatrizes não são sentença.
São sinal de que a ferida não venceu.

E hoje, eu ainda lembro.
Mas não como quem se chicoteia.
Eu lembro como quem entrega.

E se um dia o medo tentar me convencer de que Deus é castigador…
Eu vou lembrar:
O Deus que me salvou não me persegue.
O Deus que me curou não me cobra.
O Deus que me encontrou no meu pior dia não vai me abandonar no meu futuro.

Porque Ele não é o Deus da punição.
Ele é o Deus da restauração.

E talvez, a maior prova de misericórdia não seja apagar o passado…
Mas perceber que, mesmo com marcas, eu continuo de pé.
E isso já é graça.

“As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos,
porque as suas misericórdias não têm fim. Renovam-se cada manhã; grande é a tua fidelidade.”
Lamentações 3:22–23

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

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