Capítulo 110 — Como confiar quando tudo parece incerto?

“O dia em que o cansaço me fez questionar o chamado”

“Como confiar quando tudo parece incerto?
Como ter certeza que não tomei a decisão errada?
Como entender se realmente foi vontade de Deus… ou só o meu ego e ambição?”

Essas foram as perguntas que eu escrevi no meio da tarde, no meio da rota.

Ainda era tarde.
Ainda não tinha chovido.
Ainda não tinha uniforme esquecido.
Ainda não tinha dor de cabeça nem roupa acumulada.

Eu não sabia o que me esperava naquele dia.
Mas meu espírito já estava inquieto.
Horas depois, o dia começou a pesar.

Nada extraordinário aconteceu.
E talvez tenha sido exatamente isso.

A chuva veio no meio do caminho.
Os horários se desencontraram.
Alguns ambientes pareciam mais densos do que produtivos.
Meu corpo estava sensível.
Minha mente mais vulnerável.

Eu terminei o expediente exausta.
Mas o dia não terminou comigo.

Havia filhas para buscar.
Natação, lição de casa…
Detalhes para resolver.
Compromissos que não esperam humor melhorar.

Cheguei em casa ainda com o peso do lado de fora grudado em mim.

Livros novos sobre a mesa esperando etiquetas.
Tarefas escolares pedindo atenção.
Jantar para aquecer.
Roupa na máquina.
Um amanhã que começaria cedo no dia seguinte.
E eu ainda estava de roupa de trabalho.

Então sentei no carro antes de entrar.
E chorei.
Mas não foi um choro dramático.
Foi um choro de quem se sente base demais.

E eu faço isso, as vezes eu me sinto o alicerce da casa.
Como se tudo dependesse de mim.
Como se não houvesse espaço para falhar.
Como se a estrutura inteira fosse desabar se eu fraquejasse.

E ali, no silêncio daquele carro, uma pergunta ecoou:

“Será que eu fiz a escolha certa?”

Trocar de empresa foi direção… ou foi ambição?
Esse novo ritmo é propósito… ou é só desejo de crescer?

E ali, eu quase murmurei.
Quase transformei cansaço em reclamação.

Mas o Espírito Santo fez algo diferente.
Ele reorganizou meu olhar.
E me lembrou:
Se há natação, é porque há provisão.
Se há escola, é porque há cuidado.
Se há livros novos, é porque houve compra.
Se há trabalho cedo amanhã, é porque há sustento.
Se há cansaço, é porque há responsabilidade honrada.
Se o jantar precisa estar pronto, é porque minhas filhas voltaram para casa.

E de repente, o que eu chamava de peso começou a parecer bênção.

Então instantaneamente eu pensei em Moisés.

Chamado em Êxodo para libertar um povo do Egito.
Uma promessa clara. A Terra prometida.
Um destino definido.

Mas em Números o deserto se alonga.
Não porque Deus mudou de ideia.
Mas porque o coração do povo precisava mudar.

O trajeto não era longo.
A postura é que era frágil.

A murmuração transformou dias em anos.
A incredulidade prolongou o que poderia ter sido breve.

O Egito saiu do mapa rapidamente.
Mas demorou para sair do interior deles.

E eu entendi algo que me atravessou:
O deserto pode durar 40 dias.
Ou 40 anos.

E muitas vezes não é o cenário que determina isso.
É o nosso coração.
Se murmuramos ou se agradecemos.

Lembrei também do momento em que Moisés, cansado, feriu a rocha quando Deus havia pedido apenas que falasse com ela.

Porque exaustão altera a nossa reação.
E sobrecarga muda o nosso tom.

E eu estava a um passo de ferir minha própria rocha com murmuração.
Mas naquele carro eu escolhi agradecer.

Nada mudou do lado de fora.
Os livros ainda estavam ali.
A roupa ainda precisava ser estendida.
O amanhã ainda seria cedo.

Mas algo mudou dentro.
Eu finalmente entendi:
Eu não sou o alicerce.
Eu não sou a fundação da minha casa.

Eu sou filha.
E o fundamento é Deus.

Em Provérbios 3:5-6 está escrito:

“Confia no Senhor de todo o teu coração e não te apoies no teu próprio entendimento; reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas.”

Mas confiar não é ter certeza de que a decisão foi perfeita.
É descansar sabendo que Deus é maior do que qualquer imperfeição.

Talvez essa nova fase seja deserto.
Talvez seja expansão.
Talvez seja ambas.

Mas deserto não é punição.
É alinhamento.

Jesus também foi conduzido ao deserto antes de iniciar Seu ministério público.
Não para ser enfraquecido, mas para ter Sua identidade afirmada.

Talvez dias difíceis não sejam sinal de erro.
Talvez sejam formação invisível.

E há algo que eu não posso ignorar:
Se estamos debaixo de uma direção clara de Deus, é natural que surjam dúvidas.
A oposição raramente vem gritando.
Ela vem sussurrando insegurança.
Porque a dúvida é a forma mais sutil de interromper um chamado.

E eu me lembrei de algo que sempre ouvi:
“Ladrões não invadem casas vazias.”

Se existe tanta tentativa de plantar dúvida, talvez seja porque há promessa.
Se existe tanta pressão, talvez seja porque há crescimento.
Se o inimigo tenta confundir o nosso coração, é porque há algo grande sendo formado.

E se eu não estiver alinhada com aquilo que Deus falou, eu posso desistir no meio do caminho.
Posso transformar 40 dias em 40 anos.

Mas naquele dia, mesmo cansada, eu não estava revoltada.
E isso foi resposta suficiente.

Porque confiança não é ausência de dúvida.
É permanência apesar dela.

“Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados segundo o seu propósito.” — Romanos 8:28

E talvez você também tenha feito perguntas antes do seu próprio deserto começar.
Talvez você também esteja vivendo dias em que tudo parece incerto.

E a pergunta não é se o caminho terá deserto.
A pergunta é: o seu coração vai murmurar… ou confiar?

Porque a terra prometida começa no momento em que você decide descansar
Mesmo quando ainda está sentada no chão da cozinha, cansada…
Mas rendida.

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

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Comentários que floresceram por aqui.

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Cristiane
7 dias atrás

Coisa linda