Capítulo 115 — O que você devolve ao mundo?

O mundo não revela quem ele é… revela quem nós nos tornamos.

Houve um tempo em que eu não confiava em ninguém.

Eu olhava para as pessoas sempre com um pé atrás.
Achava que, em algum momento, elas iam me ferir, me trair, me apunhalar pelas costas.
Via interesse onde talvez não existia.
Via inveja em olhares neutros.
Via ameaça em gestos comuns.

Eu não baixava a guarda.
Eu não descansava.

Eu vivia pronta para me defender…
Mesmo quando ninguém estava me atacando.

E hoje, olhando para trás, eu entendo:
Eu não enxergava o mundo como ele era
Eu enxergava o mundo como eu estava.

Ferida.
Quebrada.
Desconfiada.

E é engraçado — ou talvez triste — perceber como isso se repete na vida de tantas pessoas.

Gente que vive em estado constante de alerta.
Que transforma dias comuns em cenários de guerra.
Que vê problema em tudo, maldade em todos, ameaça em qualquer movimento.

E não necessariamente porque o mundo é assim…
mas porque o coração delas está assim.

Mas foi só depois que Deus me alcançou que algo começou a mudar dentro de mim.

Não de fora pra dentro.
Mas de dentro pra fora.

E hoje, eu escolho viver diferente.

Eu ando de guarda baixa.
Eu escolho confiar, mesmo quando o outro ainda não me deu motivos suficientes pra isso.
Eu penso primeiro no que eu posso oferecer, não no que eu posso perder.

E se, no meio do caminho, alguém me decepciona, eu não desabo mais como antes.

Eu entendo: não foi sobre mim.
Foi sobre o outro.

E isso muda tudo.

Porque quando você espera sempre o pior, você vive antecipando dores que talvez nunca cheguem.
Mas quando você decide confiar, você descansa.

Descansa nas pessoas…
e principalmente em Deus.

“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.”
— Provérbios 4:23

E recentemente, eu vivi uma situação que me confrontou profundamente.

Uma pessoa no meu trabalho começou a dar sinais claros de manipulação, de desalinhamento, de falta de verdade.

E, dentro de mim, a reação foi imediata:
Confronta.
Corta.
Resolve.
Encerra.

A minha justiça gritou.

Mas algo dentro de mim — ou melhor, Alguém — me freou.

E eu precisei escolher um caminho mais difícil.

Ter paciência.
Ter calma.
Orientar.
Ajustar.
Acompanhar.

Sem atacar.
Sem julgar.
Sem agir no impulso.

E naquele processo, Deus me confrontou de uma forma muito clara:

“Se Eu tivesse desistido de você quando você era assim… onde você estaria hoje?”

E aquilo me desmontou.

Porque a verdade é que a gente tem uma facilidade enorme de desistir das pessoas.

A gente classifica rápido.
Define rápido.
Descarta rápido.

Mas o evangelho… ele não funciona assim.

Jesus não amou só os fáceis.
Ele amou os improváveis.
Os rejeitados.
Os que erraram feio.

Ele andou com quem ninguém queria andar.
Sentou à mesa com quem ninguém queria sentar.
E amou até quem o trairia.

“Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de Cristo ter morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.”
— Romanos 5:8

E isso confronta a nossa justiça humana.

Porque, no fundo, a gente gosta de se achar bom.
Correto.
Íntegro.

Mas ser correto não é o mesmo que ser semelhante a Cristo.

E eu sei, porque já fui essa pessoa.

A que julgava.
A que queria fazer justiça com as próprias mãos.
A que se achava “do bem”… mas não amava de verdade.

Até o dia em que eu me vi de verdade.

E percebi que eu também não merecia ser amada.
Que eu também não merecia ser perdoada.
E, ainda assim, fui.

Foi nesse lugar que a compaixão nasceu.

Ainda pequena.
Ainda em construção.
Mas real.

Porque viver o evangelho na íntegra… não é simples.

É amar quando a lógica manda se afastar.
É ter misericórdia quando a vontade é julgar.
É confiar na justiça de Deus quando a nossa quer agir.

E isso exige renúncia.
Diária.

“Não que eu já tenha alcançado tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo…”
— Filipenses 3:12

Hoje, eu entendo que a vida é um eco.

Ela devolve — não necessariamente pela mesma pessoa, nem no mesmo momento —
mas devolve aquilo que a gente decide emitir.

E mais do que isso… a vida também revela.

Revela o coração que estamos carregando.

Se estamos feridos, veremos feridas.
Se estamos em guerra, veremos guerra.
Mas quando Deus começa a curar o nosso interior…
o nosso olhar também começa a mudar.

E é aí que o ciclo se quebra.

Porque o cristão não foi chamado pra ser represa.

Não foi chamado pra reter amor, perdão, graça…
esperando o outro merecer.

O cristão foi chamado pra ser rio.

Que recebe…
e derrama.

Que é alcançado…
e alcança.

Que é amado…
e ama.

E talvez a grande pergunta não seja:

“O que estão fazendo comigo?”

Mas sim:

“O que eu estou devolvendo ao mundo?”

Porque, no fim…
o mundo que você vê pode até não mudar.

Mas o jeito que você responde a ele, isso muda tudo.

E talvez você não consiga mudar o mundo à sua volta.
Talvez as pessoas continuem sendo falhas, incoerentes, difíceis…
Talvez você ainda seja ferida em alguns caminhos.

Mas quando o seu coração já não responde mais na mesma moeda…
Quando você escolhe amar onde antes reagiria…
Quando você decide ser rio, mesmo em um mundo de represas…

Algo dentro de você já foi transformado.

E, no fim…
Não é sobre viver em um mundo melhor.

É sobre não se tornar aquilo que um dia te feriu.

“Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.”
— Romanos 12:21

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

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