Capítulo 120 — Quando Deus nos chama de volta para casa

Ele não apenas nos traz de volta, Ele transforma nossa bagunça em testemunho.

Há alguns anos, Deus me chamou de volta para casa.

E quando eu digo casa, eu não falo de igreja.
Eu falo de presença.
De intimidade.
De pertencimento.

Porque por muito tempo eu estive perto de muitas coisas…
mas longe dEle.

E essa talvez seja uma das dores mais silenciosas que existem:
Estar cercada de barulho e ainda assim vazia.

Eu conhecia sobre Deus,
mas ainda não vivia profundamente com Ele.

Eu orava, mas não me rendia.
Eu buscava, mas ainda segurava o controle.
Eu queria a bênção, mas ainda fugia do processo.

E, no fundo, eu carregava aquela velha mentira:
De que talvez eu tivesse ido longe demais.
Errado demais.
Falhado demais.
Me perdido demais.

Como se existisse uma distância onde a graça não alcançasse.

Como se Jesus olhasse para alguém e dissesse:
“Você passou do limite.”

Mas a verdade é que Deus nunca disse isso.

Nós é que dizemos.
A culpa diz.
A vergonha diz.
O mundo diz.

E por muito tempo eu acreditei.

E recentemente, assistindo a um vídeo de um rapaz dizendo que estava encerrando sua carreira no Funk para entregar sua vida por completo a Cristo, uma frase dele me atravessou:

Não existe passado pesado demais que a luz de Cristo não possa iluminar.

E aquilo me fez voltar no tempo.

Porque eu me lembrei da mulher que eu fui.
Das vezes em que me perdi.
Dos lugares onde me diminuí.
Das escolhas erradas.
Das reincidências.
Das quedas que me fizeram pensar que talvez Deus estivesse cansado de mim.

Mas Ele não estava.
Nunca esteve.
E isso ainda me emociona.

Porque se dependesse da lógica humana,
eu mesma já teria desistido de mim.

Mas Deus não desistiu.
Ele continuou…

Continuou me chamando.
Continuou me corrigindo.
Continuou me esperando.
Continuou me amando.

Como o pai do filho pródigo.
Porque o amor de Deus não funciona como o amor humano.

O amor humano diz:
“Prove que merece.”

Deus diz:
“Volte pra casa.”

E eu voltei.

Não perfeita.
Não pronta.
Não curada.

Eu voltei quebrada mesmo.

Com culpas.
Com feridas.
Com vícios emocionais.
Com traumas.
Com medo de não conseguir sustentar a mudança.

E foi ali que começou o verdadeiro processo.

Porque voltar para Cristo não é o fim da guerra.
É o começo da cura.

E o inimigo ama quando permanecemos presos ao pecado.
Porque o pecado é uma gaiola confortável.
Bonita.
Acolchoada.
Decorada.

Você se acostuma com ela e chama aquilo de liberdade.
Mas quando você decide sair… a guerra começa.

Porque enquanto você estava presa, ele estava satisfeito.

Mas quando você se levanta,
quando decide romper,
quando escolhe obedecer,
quando decide voltar para Deus…
ele se enfurece.

Então, vêm os ataques.
As acusações.
As recaídas.
As vozes.
O medo.
A vergonha.

E, às vezes, o pior:
O julgamento das pessoas.

“Aquela ali?”
“Mas eu já vi ela fazendo tanta coisa errada.”
“Daqui a pouco volta.”

E isso pesa.
Porque às vezes a acusação de fora encontra abrigo na culpa que ainda existe dentro da gente.

Mas foi nesse processo que eu aprendi algo que nunca mais esqueci:
Ladrões não roubam casas vazias.

Se o inimigo ataca tanto,
é porque ele sabe o que existe aí dentro.

Ele sabe o potencial.
Ele sabe das vidas que serão alcançadas.
Ele sabe da autoridade que nasce da dor curada.
Ele sabe do ministério escondido dentro da cicatriz.

Por isso ele luta tanto.
E foi olhando minha própria história que eu entendi isso.

E durante muito tempo, eu olhava para pessoas que nasceram e cresceram no Evangelho e achava lindo.
Porque é bonito ver alguém que foi guardado.
Preservado.
Protegido.
Há muita beleza nisso.

Mas eu descobri que também existe beleza no resgate.
Existe beleza em quem voltou.
Existe beleza em quem foi arrancado do lamaçal e decidiu não retornar.

Existe beleza em quem carrega marcas, porque marcas contam histórias.
E Deus me ensinou algo precioso: Ele não desperdiça dores.

Aquilo que parecia apenas bagunça,
Ele transforma em autoridade.

Aquilo que parecia vergonha,
Ele transforma em testemunho.

Aquilo que parecia condenação,
Ele transforma em ferramenta de cura para outras pessoas.

Porque eu só consigo falar de cura
porque eu já precisei ser curada.

Eu só consigo falar de restauração
porque já vivi ruínas e fui restaurada.

Eu só consigo olhar com empatia para certas dores
porque já chorei nelas.

Há feridas que só quem atravessou consegue tocar sem ferir.

E isso não diminui quem nasceu no berço cristão.
Pelo contrário.
Cada testemunho carrega sua beleza.

Mas existe algo muito poderoso quando Deus pega alguém improvável e transforma em evidência viva da graça.

Quando Ele pega ruínas e faz altar.
Quando Ele pega caos e faz propósito.
Quando Ele pega alguém que o mundo apontaria como improvável e diz:
“Essa pessoa será instrumento meu.”

E eu vejo isso na minha vida.

O tanto que Deus me resgatou.
O tanto que me lapidou.
O tanto que ainda continua lapidando.

Porque santidade não é um evento.
É um caminho.

E quantas vezes eu caí no meio dele.
Quantas vezes fraquejei em lugares que já haviam sido tratados.
Quantas vezes precisei voltar ao mesmo ponto.

E quantas vezes Deus continuou lá.
Sem cinismo.
Sem humilhação.
Sem acusação.

Só dizendo:
“Levanta. Vamos continuar.”

E hoje, olhando para trás, eu entendo:
Deus não me trouxe de volta apenas para me salvar.

Ele me trouxe de volta para me usar.

Não necessariamente com um microfone na mão.
Mas com a vida.

Sendo evangelho.
Sendo testemunho.
Sendo ponte.

Porque nem toda pregação acontece no altar.

Às vezes ela acontece no trabalho.
Na conversa difícil.
Na forma como você permanece.
Na maneira como você ama.
Na integridade quando ninguém vê.
Na cicatriz que agora virou cura para alguém.

Voltar para casa é sobre isso.
Sobre permitir que Deus transforme toda a bagunça que um dia fomos
em caminho para alcançar outras pessoas.

Não em palco.
Em propósito.

Não em performance.
Em verdade.

Não em aparência.
Em transformação.

E se hoje alguém me pergunta se vale a pena voltar para Deus, eu respondo sem hesitar:
Vale.

Vale cada renúncia.
Vale cada guerra.
Vale cada processo.

Porque do outro lado da rendição
Existe vida.
Existe paz.
Existe identidade.
Existe propósito.
Existe casa.

E eu não falo isso como quem ouviu dizer.
Eu falo como quem voltou.
Como quem foi encontrada.
Como quem sabe exatamente de onde Deus a tirou.

E talvez o maior milagre não tenha sido Ele abrir a porta.
Tenha sido descobrir que ela nunca esteve fechada.

“Então voltou para a casa de seu pai. Quando ele ainda estava longe, seu pai o viu.
Cheio de compaixão, correu para o filho, o abraçou e o beijou.” — Lucas 15:20

Porque Deus não apenas me chamou de volta para casa.
Ele me fez entender que até as ruínas podem florescer.

“O Senhor é aquele que faz brotar rios no deserto
e florescer esperança em meio às ruínas.”
(Isaías 43:19, livremente inspirado)

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

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