Capítulo 129 — Carta para a menina que viu seu conto de fadas desmoronar

Série: “Cartas para a menina que eu fui”

Dessa vez, você achou que tinha encontrado.
Não só um amor.
Mas o amor.

Aquele que parecia finalmente compensar todas as ausências anteriores.
Aquele que fazia sentido.
Aquele que parecia resposta.

Você já não era mais tão menina, mas ainda carregava dentro de si todas aquelas versões antigas que ainda queriam ser escolhidas.

E então você o reencontrou.
Vocês já tinham se cruzado antes, na adolescência.

Dois CDFs.
Dois melhores alunos.
Duas promessas de futuro.

Se conheceram numa premiação escolar,
cada um brilhando na sua própria escola,
cada um seguindo seu próprio caminho.

Naquela época, ele namorava.
E você também.

Então a vida seguiu.

Você engravidou.
Se separou.
Aprendeu a sobreviver.

E quando a Eduarda tinha cerca de dois anos, o destino — ou o caos organizado de Deus — fez vocês se reencontrarem.

E foi instantâneo.
Daqueles encontros que parecem já ter começado antes.

Vocês voltaram a conversar.
Marcaram um encontro.
E pronto.
Ali começou.

Em pouco tempo, vocês estavam juntos.
Em um mês, ele te pediu em namoro.
Logo depois, já era uma relação séria.

Casa.
Planos.
Apartamento.
Construção de futuro.
Família.

E então veio a Mel.

E durante um tempo… foi lindo.
Ou pelo menos parecia.

Ele era o príncipe encantado.
Romântico.
Intenso.
Enchia a casa de pétalas de rosa.
Presentes inesperados.
Mimos.
Declarações.
Poesias trocadas.

Um homem que parecia ter saído de todos os sonhos que você escreveu na adolescência.
O conto de fadas finalmente tinha chegado.

E você acreditou.
Como não acreditaria?

Depois de tantas dores, aquilo parecia redenção.
Parecia Deus dizendo: “agora vai.”

E durante um tempo, realmente foi.

Mas alguns castelos são bonitos demais por fora, mas apodrecem por dentro.

Ele te colocava num pedestal.
E, ao mesmo tempo, te fazia acreditar que sem ele você não conseguiria permanecer ali.

Esse é o truque mais cruel de quem ama controlando.

Primeiro, te exalta.
Depois, te convence de que sua grandeza depende dele.

Ele falava da sua criação.
Da sua família.
Do seu lar disfuncional.

Falava da sua fé.
Das suas crenças.
Da sua maternidade.

Falava de você como quem analisa uma obra inacabada.

E sempre existia a mesma mensagem escondida:
Você era melhor porque ele te fazia melhor.

Você achava que era cuidado.
Achava que era amor.
Achava que era alguém te ajudando a crescer.

Não percebia que estava sendo diminuída em nome da construção.
Não percebia que amor não humilha disfarçado de lapidação.

Você foi se moldando.
Mais uma vez.
Tentando ser boa o suficiente.
Tentando ser a mulher ideal.
Tentando sustentar o personagem que acreditava precisar existir para merecer aquele amor.

Porque no fundo, a ferida ainda era a mesma.
A menina que achava que precisava merecer amor só tinha trocado de cenário.
Agora ela morava num apartamento bonito e continuava implorando por pertencimento.

Até que o corpo gritou.
A alma cansou.
E você entrou em depressão.
Burnout.
Exaustão.

Não porque era fraca.

Mas porque ninguém sustenta para sempre uma versão de si mesma que não é real.

Você estava cansada de tentar caber.
Cansada de parecer forte.
Cansada de ser perfeita.
Cansada de precisar ser grata por um amor que também te feria.

E quando tudo ruiu… você afundou.

Porque não era só um relacionamento acabando.
Era o seu conto de fadas.

Era a sua chance de finalmente ter a família ideal.
O casamento certo.
A vida bonita.
A história que provaria que tudo tinha valido a pena.

E ele tinha te convencido tão bem de que ninguém seria melhor do que ele, que a separação parecia uma sentença.

Como se o amor tivesse acabado e levado sua dignidade junto.
Como se o fim daquele casamento fosse a prova definitiva de que você falhou.

E talvez essa tenha sido a dor mais profunda:
Não perder ele.
Mas perder a versão de vida que você achava que precisava viver.

O divórcio.
A separação.
Sair de casa.
A guarda compartilhada da Mel, ainda tão pequena.
A Eduarda, que o chamava de pai…

A vergonha.
O medo.
O que as pessoas diriam.
Mais uma vez.
Depois de tantos relacionamentos frustrados, agora uma separação real.
Concreta.
Visível.

Assumir para o mundo que você não conseguiu.
Que fracassou de novo.

Isso quase te destruiu.

Porque você não estava enterrando só um casamento.
Estava enterrando um sonho.
E sonhos também têm luto.

Naquele momento, você achou que aquela era sua maior derrota.
Que ali terminava tudo.
Que aquela ruína era definitiva.

Mas hoje eu olho pra você e penso:

Ali não foi o fim.
Ali foi o começo da verdade.

Porque às vezes Deus não destrói um conto de fadas para te punir.
Ele desmonta uma fantasia para finalmente te apresentar a realidade.

E amor de verdade não exige que você desapareça para que ele exista.

Você não perdeu um príncipe.
Você saiu de um palco.

E isso, embora doa, é libertação.

Eu só queria sentar ao lado daquela mulher devastada.

Daquela versão sua que olhava os próprios cacos e achava que nunca mais seria inteira.

E dizer:

Você não fracassou.
Você acordou.
Você não perdeu sua chance de ser feliz.
Você perdeu a ilusão de que felicidade precisava parecer perfeita.

E ainda vai doer mais.

Porque o próximo capítulo não será sobre o castelo.
Será sobre as ruínas.

Sobre a mulher que olhou para o divórcio e achou que ali a vida tinha acabado.

Mas ainda não.

Hoje, eu só quero que você saiba:
Alguns finais não são tragédias.
São resgates.

E o que parecia a sua maior derrota
talvez tenha sido a primeira grande misericórdia.

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
— João 8:32

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

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Comentários que floresceram por aqui.

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Simone
19 dias atrás

Deus é perfeito em tudo que faz. Nosso aparentemente caos, muitas vezes é Deus colocando ordem na nossa “bagunça”. Que texto lindo 💝🙏🏻