Série: “Cartas para a menina que eu fui”
Se eu pudesse sentar hoje, numa sala silenciosa e reunir todas vocês…
a menina assustada,
a adolescente apaixonada e confusa,
a jovem mãe desesperada,
a mulher cansada que só queria descansar,
a esposa que viu seu conto de fadas ruir,
a divorciada que achou que era o fim,
a filha que voltou pra casa
e a mulher que finalmente entendeu que não precisava mais provar nada…
Eu não começaria falando.
Eu abraçaria.
Uma por uma.
Sem pressa.
Sem julgamento.
Sem tentar consertar.
Porque hoje eu sei: nenhuma de vocês precisava de sermão.
Precisavam de colo.
Precisavam ouvir que sobreviver também era coragem.
Que continuar também era fé.
Que chorar não era fraqueza.
Que sentir demais nunca foi defeito.
Vocês passaram por tanta coisa.
Mais do que muita gente imagina.
Mais do que muita gente nunca vai saber.
E ainda assim…
olha só vocês aqui.
Vivas.
De pé.
Não intactas — porque ninguém atravessa a vida intacta.
Mas inteiras.
Curadas em processo.
Restauradas em andamento.
Ainda humanas.
Ainda falhas.
Ainda pecadoras.
Ainda aprendendo.
Mas profundamente alcançadas pela graça.
E eu queria dizer para cada uma de vocês:
Valeu a pena.
Cada lágrima escondida.
Cada noite escura.
Cada ônibus pego cansada.
Cada medo engolido.
Cada amor mal vivido.
Cada decepção.
Cada humilhação.
Cada recomeço.
Cada oração feita em silêncio quando parecia que Deus estava longe.
Nada foi em vão.
Nada.
Tudo virou óleo.
Tudo virou testemunho.
Tudo virou ferramenta nas mãos de Deus.
As feridas que quase nos destruíram se tornaram flores.
E hoje, com elas, a gente alcança outras mulheres.
Mulheres cansadas.
Mulheres quebradas.
Mulheres que ainda acreditam que precisam merecer amor.
Mulheres que ainda vivem como órfãs emocionais.
Mulheres que ainda não sabem que Deus continua chamando seus nomes.
E talvez esse seja o maior milagre da nossa história:
Não foi apenas sobreviver.
Foi transformar dor em ponte.
Foi permitir que aquilo que nos feriu
se tornasse cura para outras pessoas.
Hoje eu olho ao redor e vejo pequenos milagres que um dia pareceram impossíveis.
Minha casa.
Meu cantinho.
Minhas meninas.
A amizade delas.
O riso delas pela casa.
A paz de deitar e saber que, apesar de tudo, nós estamos bem.
Minha profissão.
Minha carreira.
Os lugares por onde passei e as mascas que deixei.
Meu time.
Minha equipe.
As pessoas que lidero e que não me obedecem por medo, mas me respeitam por verdade.
As mensagens que voltam.
As pessoas que reaparecem anos depois, só para dizer:
“Você foi importante.”
“Você foi luz.”
“Você me ajudou mais do que imagina.”
E isso me desmonta.
Porque durante muito tempo eu achei que estava só tentando sobreviver.
Mas Deus estava me ensinando a servir.
A liderar.
A amar.
A refletir Cristo mesmo quando eu ainda estava em construção.
Hoje eu não busco mais aplauso.
Não busco status.
Não busco reconhecimento vazio.
Eu só quero ser útil.
Útil para o Reino.
Útil para o propósito.
Útil para aquilo que Deus decidiu escrever através de mim.
Não sou santa.
Nem de longe.
Ainda erro.
Ainda falho.
Ainda tenho dias ruins.
Ainda existem lutas que ninguém vê.
Ainda existe uma longa estrada.
Mas existe uma diferença gigante:
Agora eu sei para onde voltar.
Eu sei onde é minha casa.
Eu sei onde está a fonte.
Eu sei onde minha alma respira.
Eu sei que posso me ajoelhar e dizer:
“Pai, não desista de mim.”
E ouvir em silêncio:
“Filha, eu nunca desisti.”
Essa é a paz.
Essa é a cura.
Essa é a liberdade.
Não é perfeição.
É pertencimento.
É saber que mesmo quando eu falho, a graça ainda me alcança.
Que mesmo quando eu tropeço, o amor dEle não recua.
Que mesmo quando eu me perco, a casa continua aberta.
E se hoje eu pudesse dizer só uma coisa para todas vocês — para todas nós — seria isso:
Obrigada.
Obrigada por não desistirem.
Obrigada por continuarem mesmo sem saber como.
Obrigada por sustentarem dias que pareciam impossíveis.
Obrigada por sobreviverem ao que quase matou vocês.
Porque foi por causa disso que eu cheguei até aqui.
E eu gosto muito da mulher que estamos nos tornando.
Não pela força.
Mas pela rendição.
Não pela perfeição.
Mas pela verdade.
Não pelas conquistas.
Mas pela presença de Deus em tudo.
E se ainda houver muitos capítulos pela frente — e eu sei que há — eu quero viver todos eles assim:
De joelhos.
Com o coração quebrantado.
Com as mãos abertas.
Com coragem de recomeçar quantas vezes for preciso.
E com a mesma oração que hoje já não sai só dos lábios, mas da alma:
Pai, eis-me aqui.
Não desista de mim.
Usa-me.
Envia-me.
E se tudo o que vivi servir para que uma única mulher volte para casa…
Então tudo terá valido a pena.
Porque no fim,
nunca foi sobre sobreviver.
Sempre foi sobre voltar.
“Antes que eu te formasse no ventre, eu te conheci; e, antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta.”
— Jeremias 1:5
Que série de cartas lindas e profundas. Todas nós compartilhamos todas essas mulheres, vivemos em um mundo onde somos o tempo todo furtadas daquilo de mais bonito que Deus nos deu… a filiação. Somos a menina dos olhos de Deus! A parte mais sensível e protegida de toda a criação. Que através da sua vida, Deus restaure muitas filhas ao amor eterno do Pai! 🙏🏻💝