Se no capítulo anterior a primeira lição daquela tempestade foi aprender a descansar enquanto Deus cuidava de mim…
A segunda foi aprender o que fazer com quem havia provocado aquela dor.
Depois que Deus aquietou o meu coração, Ele começou a moldá-lo.
Porque existem dores que nos machucam.
E existem dores que nos oferecem uma escolha.
No capítulo anterior eu contei sobre uma situação profundamente injusta que vivi.
Fui alvo de acusações que jamais imaginei enfrentar.
E durante alguns dias, tudo o que eu podia fazer era esperar.
Mas, curiosamente, depois que a paz chegou, descobri que havia uma batalha ainda mais difícil.
Continuar amando quando meu coração tinha motivos para endurecer.
Quando compartilhei o que estava acontecendo com algumas pessoas muito próximas, a reação foi praticamente unânime.
“Você precisa reagir.”
“Não pode deixar isso barato.”
“Faça justiça.”
“Mostre que isso terá consequências.”
E, sinceramente, eu entendia cada uma daquelas palavras.
Eram conselhos dados por pessoas que me amavam, que sofreram ao me ver sofrer e desejavam me proteger.
Humanamente, tudo fazia sentido.
Quando somos feridos, a reação mais natural é querer devolver a dor.
Quando somos acusados injustamente, queremos provar que estamos certos.
Quando somos atacados, queremos atacar também.
Mas, enquanto todas aquelas vozes me incentivavam a lutar, havia uma Voz muito mais suave falando ao meu coração.
O Espírito Santo me conduzia exatamente na direção oposta.
“Não revide.”
“Permaneça em paz.”
“Confie em Mim.”
Não era passividade.
Não era omissão.
Era confiança.
E durante aqueles dias, um devocional trouxe até mim um texto que parecia ter sido escrito exatamente para aquele momento.
“Mas a vocês que estão ouvindo eu digo: amem os seus inimigos, façam o bem aos que os odeiam. Abençoem os que os amaldiçoam e orem por aqueles que os maltratam.” (Lucas 6:27-28)
Confesso que essas palavras encontraram resistência antes de encontrarem abrigo.
Sempre li esse texto imaginando grandes perseguições.
Missionários.
Mártires.
Cristãos sendo presos por causa da fé.
Nunca imaginei que Deus o traria ao meu coração justamente quando eu me sentia profundamente injustiçada.
Foi então que percebi que o Evangelho quase sempre começa dentro das pequenas guerras do nosso próprio coração.
Porque amar quem nos ama é relativamente fácil.
Difícil é orar por quem acabou de nos ferir.
Difícil é desejar paz para quem tentou roubar a nossa.
Difícil é entregar nas mãos de Deus aquilo que temos plena condição — e talvez até o direito — de resolver com as nossas próprias mãos.
Naquele momento compreendi algo que jamais havia entendido dessa forma.
Eu estava no meu direito de buscar reparação.
Mas Deus estava me convidando para algo maior do que exercer um direito.
Ele estava me ensinando a confiar na Sua justiça.
E pela primeira vez compreendi que confiar na justiça de Deus é abrir mão do controle sobre o desfecho.
É permitir que Ele decida quando agir.
Como agir.
E até se eu verei o resultado nesta vida.
Foi então que percebi a enorme diferença entre querer justiça e querer vingança.
A justiça restaura.
A vingança apenas multiplica a dor.
Enquanto eu orava, outra frase encontrou pouso no meu coração.
Deus não nos poupará de sermos feridos, mas, se permanecermos nEle, seremos sarados.
Passei dias repetindo isso para mim mesma.
Porque Deus nem sempre impede que a flecha seja lançada.
Mas Ele sempre sabe curar a ferida que ela deixa.
Naquele processo, percebi que o maior milagre não seria provar que eu tinha razão.
O maior milagre seria não permitir que meu coração se tornasse parecido com o coração de quem me feriu.
Foi então que compreendi que orar pelos nossos inimigos não transforma primeiro a vida deles.
Transforma a nossa.
Porque é muito difícil alimentar ódio por alguém que colocamos diante de Deus todos os dias.
A oração vai desfazendo, pouco a pouco, aquilo que a mágoa tenta construir.
Ela não muda imediatamente as circunstâncias.
Mas muda quem nós estamos nos tornando dentro delas.
Percebi também que o perdão raramente começa quando sentimos vontade.
Ele começa como uma decisão.
A emoção quase sempre chega depois.
Foi assim que entendi que Deus não estava apenas interessado em resolver aquela situação.
Ele estava interessado em formar Cristo em mim.
No início da minha caminhada com Jesus, eu acreditava que maturidade espiritual era aprender a orar mais.
Hoje percebo que maturidade espiritual também é aprender quando não responder.
É permanecer em silêncio quando o orgulho grita.
É escolher a paz quando a carne pede guerra.
É entregar a Deus batalhas que poderíamos lutar, mas que nunca fomos chamados para vencer com as nossas próprias forças.
Talvez o maior ato de confiança na justiça de Deus seja abrir mão da necessidade de provar que estamos certos.
Há batalhas que vencemos quando lutamos.
Mas existem outras que só vencemos quando nos ajoelhamos.
Hoje continuo acreditando na justiça de Deus.
Mas já não preciso que ela aconteça no meu tempo para descansar.
Descobri que existe uma liberdade imensa quando deixamos de carregar o peso de retribuir aquilo que Deus nunca colocou em nossas mãos.
Algumas pessoas vencerão discussões.
Outras provarão que estavam certas.
Mas aqueles que permitem que Cristo molde o próprio coração experimentam uma vitória muito maior.
Porque, no fim das contas, o maior milagre daquela tempestade não foi a verdade ter vindo à tona.
Foi perceber que, quando tudo terminou, eu havia saído mais parecida com Jesus do que quando tudo começou.
E talvez seja exatamente esse o propósito das maiores tempestades da nossa vida.
Não apenas revelar quem Deus é.
Mas revelar quem estamos nos tornando enquanto caminhamos com Ele.
“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira de Deus, porque está escrito: ‘Minha é a vingança; Eu retribuirei’, diz o Senhor.” (Romanos 12:19)