Capítulo 141 — Quando entendi que nada mais é meu

Eu já fui o tipo de pessoa que não gostava que as crianças bagunçassem as almofadas do sofá.

Não estou falando de desenhar na parede ou transformar a sala em cenário de guerra.
Estou falando das almofadas.
Elas tinham lugar.
A manta tinha jeito certo de ficar.
O sofá precisava estar arrumado.

E se alguém levantasse deixando tudo meio torto, provavelmente eu passaria logo depois ajeitando.

Hoje eu acho graça.
Porque percebo que nunca foi sobre almofadas.
Era sobre controle.
Eu gostava de saber onde as coisas estavam.
Gostava de saber o que ia acontecer.

Planejar. Organizar. Antecipar problemas.
Ter plano A, plano B e, se desse tempo, um plano C para o caso de os dois primeiros resolverem me trair.

Eu funcionava bem assim.

Até Deus começar a me mostrar que eu não fazia isso apenas com a minha casa.
Eu fazia com a minha vida.

Dizia que confiava nEle.

“Tudo é Teu.”
“Seja feita a Tua vontade.”
“Pode me usar.”

Mas, se eu for sincera, durante muito tempo eu dizia tudo isso enquanto continuava segurando as rédeas.

Deus podia conduzir.
Desde que fosse mais ou menos para onde eu já tinha planejado ir.

A verdade é que a gente aprende muito rápido o vocabulário da entrega.
Difícil é descobrir se acreditamos nele quando Deus começa a mexer nas almofadas.

Ou no telhado…

Recentemente, ouvi uma reflexão sobre Marcos 2.

Jesus estava ensinando em uma casa em Cafarnaum quando quatro homens chegaram carregando um paralítico.
A casa estava lotada.
E eles não conseguiam entrar.
Então subiram no telhado.
E abriram um buraco.

Eu conheço essa história há anos.
E sempre olhei para o paralítico.
Para a fé dos amigos.
Para o homem que chegou carregado e saiu andando.

Mas dessa vez eu fiquei pensando no telhado.

Porque havia um milagre acontecendo dentro daquela casa.
E havia um buraco enorme sendo aberto em cima dela.

A Bíblia não nos conta quem era o proprietário nem como ele reagiu.
Então não posso dizer que ele simplesmente assistiu àquilo tranquilamente.

Mas a ausência dessa informação me fez outra pergunta:
E se fosse a minha casa?

Eu estaria mais preocupada com o telhado quebrado ou com o homem que precisava chegar até Jesus?

Gostaria muito de responder imediatamente: “Com o homem, claro.”

Mas conhecendo a pessoa que eu já fui…
Provavelmente pediria primeiro para tomarem cuidado com as almofadas.

Porque eu sei que Deus precisou me tratar muito nisso.

E fez isso colocando pessoas no meu caminho.

Servindo.
Discipulando.
Sendo discipulada.
Abrindo minha casa.
Minha agenda.
Minha mesa.
Minha vida.

Porque existe uma coisa curiosa sobre servir pessoas:
Pessoas bagunçam almofadas.
Literal e metaforicamente.

Elas chegam quando nem sempre é conveniente.
Precisam conversar quando você queria dormir.
Às vezes precisam da sua mesa.
Do seu carro.
Do seu dinheiro.
Do seu tempo.
Da sua escuta.

Às vezes precisam conhecer partes da sua história que você preferiria manter perfeitamente organizadas dentro de uma gaveta.

E foi no meio dessa bagunça que Deus começou a me ensinar uma verdade simples de escrever e difícil de viver:
Nada é meu.

Minha casa não é minha.
Meu dinheiro não é meu.
Meu tempo não é meu.
Meus dons não são meus.

Nem a história que vivi é apenas minha.
Tudo foi confiado a mim.

Eu não sou dona.
Sou mordoma.

“Porque dele, por meio dele e para ele são todas as coisas.”
— Romanos 11:36

E eu já conhecia esse versículo.
O problema é que existe uma distância enorme entre saber que tudo é de Deus e viver como se realmente fosse.

Principalmente para alguém acostumada a controlar.
Porque controle gosta de chamar posse de responsabilidade.

E Deus começou a me ensinar que cuidar não significa possuir.

Há pouco tempo, eu queria muito participar de uma conferência.
Estava tudo certo.
Ingresso comprado.
Lugar na caravana reservado.
Expectativa criada.

Só que a vida começou a desmontar meus planos.

Minha mãe não poderia ficar com as meninas.
O horário não encaixava.
Procurei alternativas.
Plano B, C.

Porque controle também sabe se fantasiar de perseverança.

Até que todas as possibilidades começaram a apontar para a resposta que eu não queria:
Eu não iria.

Fiquei frustrada, confesso.
Porque eu queria estar lá.

Mas chegou um momento em que parei de tentar arrombar uma porta que Deus não estava abrindo.
E fiz uma oração diferente.
Em vez de pedir uma maneira de ir, pedi:
“Deus, me dê um nome.”

Se o ingresso estava comprado e aquele lugar já existia, eu não queria vender.
Eu queria entregar.

E Deus me deu um nome.
Uma pessoa que naquele momento não teria condições de comprar aquele ingresso.

Então dei o meu.

O ingresso.
O lugar no ônibus.
A experiência que, até poucas horas antes, eu chamava de minha.

Ela foi.

Depois da conferência, meu telefone tocou.
Vieram mensagens.
Áudios.
Gratidão.

E ouvi aquela pessoa contar tudo o que Deus havia feito.

Havia feridas ali.
Dores na caminhada com Deus.
Coisas que eu nem conhecia.

E naquele lugar ela foi ministrada.
Acolhida.
Confrontada.
Tocada profundamente por Deus.

Enquanto eu ouvia, alguma coisa dentro de mim finalmente entendeu:
Não era meu ingresso.
Nunca foi.

Talvez se eu tivesse ido teria recebido muito.
Provavelmente teria sido abençoada.

Mas Deus sabia que outra pessoa precisava daquele lugar de uma maneira que eu não sabia.

E naquele instante voltei para Marcos 2.

Para o buraco.
Para o paralítico.
Para o telhado.

Eu poderia ter insistido até conseguir ir.
Poderia ter vendido o ingresso e recuperado o dinheiro.
Nada disso necessariamente faria de mim uma pessoa ruim.

Mas eu teria preservado o meu telhado.
E talvez alguém não tivesse chegado até Jesus através daquela oportunidade.

Então uma pergunta ficou dentro de mim:
Quanto vale um telhado quando existe uma vida tentando chegar aos pés de Cristo?

Talvez a gente se apegue demais aos telhados.

À casa.
À agenda.
Ao dinheiro.
Aos planos.
À imagem.
À ideia de como a vida deveria acontecer.

Gastamos tanta energia tentando manter tudo intacto que às vezes esquecemos que tudo isso passa.

Eu continuo acreditando em cuidado.
Em responsabilidade.
Em administrar bem aquilo que Deus coloca nas nossas mãos.

Mordomia não é negligência.
Mas administrar é diferente de possuir.
E cuidar é diferente de idolatrar.

A diferença aparece quando Deus diz:
“Agora entrega.”

É aí que descobrimos se somos proprietários ou mordomos.

O proprietário diz: “É meu.”

O mordomo abre as mãos e pergunta: “Senhor, o que queres fazer com aquilo que é Teu?”

Talvez entrega seja exatamente isso.
Não dar tudo a Deus.
Mas finalmente reconhecer que nunca houve nada que não fosse dEle.

Estou aqui por esse pequeno intervalo chamado vida administrando coisas eternamente emprestadas.

Uma casa que um dia deixarei.
Um carro que não virá comigo.
Dinheiro que ficará.
Tempo que terminará.
Dons que me foram confiados.
Uma história que pode virar abrigo para outra pessoa.

Até minhas cicatrizes podem não ser apenas minhas.
Talvez tenham sobrevivido em mim para um dia dizer a alguém:
“Eu também sangrei aqui. Existe um caminho de cura.”

Quanto mais penso nisso, menos vontade tenho de passar a vida protegendo telhados.

Minha casa pode gerar comunhão.
Minha mesa pode gerar discipulado.
Meu carro pode levar alguém para perto de Jesus.
Meu dinheiro pode suprir uma necessidade.
Meu testemunho pode alcançar alguém ferido.
Minha cicatriz pode ajudar alguém a sobreviver à própria dor.
Um ingresso pode colocar uma pessoa exatamente no lugar onde Deus encontrará uma dor que eu nem sabia que existia.

Talvez algumas coisas que chamamos de patrimônio sejam, na verdade, sementes.
E sementes não cumprem propósito quando permanecem intactas dentro da nossa mão.

No fim desta vida, nenhuma almofada estará perfeitamente posicionada.
Nenhum carro virá comigo.
Nenhum saldo.
Nenhum ingresso.
Nenhuma casa.
Nenhum telhado.

Mas pessoas são eternas.

E se aquilo que Deus colocou nas minhas mãos precisar ser aberto, repartido, gasto, entregue ou simplesmente passado adiante para que alguém consiga chegar mais perto de Cristo…
Eu espero ter aprendido a não ficar olhando para o prejuízo enquanto um milagre acontece na minha sala.

Hoje ainda gosto das coisas organizadas.
Ainda faço planos.
Ainda penso em alternativas.
E provavelmente ainda vou ajeitar algumas almofadas depois que todo mundo for embora.

Deus não precisou arrancar de mim quem eu sou.
Só precisou me ensinar que responsabilidade não é controle.
E que nada precisa permanecer perfeitamente no lugar quando Ele decidir usar aquilo para colocar alguém no lugar certo.

Então, Senhor, se precisar…
Pode mexer nas almofadas.
Pode mudar meus planos.
Pode usar minha casa.
Pode usar meus recursos.
Pode abrir o telhado.

Só não permita que eu volte a amar aquilo que está nas minhas mãos mais do que amo Aquele que colocou tudo aqui.

Porque tudo é Teu.
Tudo é por Ti.
Tudo é para Ti.

Inclusive eu.

“Mas o que para mim era lucro, passei a considerar perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor.”
— Filipenses 3:7-8

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

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