Capítulo 142 — Não confunda processo com destino

Outro dia, conversando com uma velha amiga, chegamos a uma conclusão um tanto desconfortável:
Nós nos acostumamos a esperar pessoas prontas.

Principalmente quando falamos de relacionamentos.

Queremos encontrar alguém maduro na fé, emocionalmente saudável, psicologicamente resolvido, financeiramente estabelecido, consciente dos próprios traumas, curado das feridas, com propósito definido e, se possível, sem nenhuma bagagem inconveniente.

Basicamente, queremos conhecer alguém depois que Deus terminar todo o trabalho.

O problema é que Deus ainda não terminou nem o trabalho em nós.
Queremos encontrar casas prontas enquanto ainda temos andaimes na sala.

E talvez estejamos ficando especialistas em avaliar obras inacabadas como se já conhecêssemos o projeto inteiro.

Não estou dizendo que devemos consertar pessoas.
Não somos terapeutas de quem amamos.
Nem fomos chamados para carregar quem se recusa a caminhar, tolerar aquilo que nos destrói ou chamar irresponsabilidade de processo.

Há gente que não quer mudar.
E há gente que ainda está mudando.

Existe uma diferença.

Uma pessoa em processo não é necessariamente a pessoa errada.
Talvez você apenas tenha chegado antes do fim da obra.

Eu sei porque um dia essa pessoa fui eu.

Não cresci conhecendo Deus de perto.
Na minha casa existia fé, algumas orações antes de dormir e um Deus a quem recorríamos quando a vida ficava grande demais para as nossas próprias mãos.

Mas intimidade eu não conhecia.

Meus pais carregavam suas próprias feridas com a religião e, de alguma forma, cresci sabendo que Deus existia, mas sem saber como era chamá-Lo de Pai.

Durante muito tempo, procurei por Ele assim, de longe.
Até que a dor me levou para perto.
No auge de uma das épocas mais difíceis da minha vida, encontrei Deus de uma maneira que nunca havia encontrado antes.

Fui tratada.
Restaurada.

Vi milagres acontecerem em lugares dentro de mim que ninguém conseguia enxergar.

Me batizei.
Comecei a caminhar.
E achei que agora finalmente tudo ficaria no lugar.

Até eu cair.

Depois de tudo o que Deus havia feito por mim, pequei novamente.
E a acusação encontrou uma mulher que já conhecia Deus, mas ainda estava aprendendo a ser filha.

“Depois de tudo o que Ele fez por você?”
“Como você teve coragem?”
“Você não merece voltar.”

E eu acreditei.

Talvez meu maior erro naquela época não tenha sido apenas cair.
Tenha sido acreditar que a queda havia cancelado minha filiação.

Em vez de correr para Deus, corri para longe dEle.
Porque eu ainda não compreendia Romanos 8:1:

“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.”

Eu ainda não sabia que existe uma voz que revela o pecado para nos levar de volta para casa e outra que usa o pecado para tentar nos convencer de que a porta de casa foi fechada.

E eu confundi as duas.

Me afastei.
Esfriei.
Voltei a velhos lugares dentro de mim.

Porque distância produz distância.

Até que um dia encontrei novamente o caminho de casa.

E dessa vez decidi: eu não iria mais embora.

Não significava que nunca mais caíria.

Eu caí.
Fraquejei.
Pequei.

Mas havia uma diferença: agora eu sabia para onde uma filha volta quando cai.

Confessei.
Renunciei.
Pedi perdão.
Levantei.
E continuei.

Não porque tivesse descoberto uma graça barata que me permitia pecar sem consequências.
Mas porque finalmente havia entendido filiação.

Meu pecado pode me constranger diante do meu Pai, mas não precisa me fazer fugir dEle.

O arrependimento me leva para perto.
Enquanto a acusação tenta me mandar para longe.

E eu decidi nunca mais transformar uma queda em endereço.

Mas tudo isso levou tempo.
Foi um processo.

Enquanto eu atravessava esse caminho, algumas pessoas continuaram orando por mim.
Continuaram intercedendo.
Continuaram acreditando quando talvez nem eu soubesse exatamente no que acreditar.

E às vezes penso: Se alguém tivesse me encontrado quatro anos atrás esperando encontrar uma mulher pronta, teria se frustrado.

Eu não estava pronta.

Mas existe um abismo entre dizer:

“Ela ainda não está pronta.”

e decretar:

“Ela nunca estará.”

Hoje olho para trás e vejo a distância percorrida.
Mas ainda existem andaimes em mim.
Poeira.
Cômodos interditados.

Partes que Deus ainda toca e diz:
“Isso aqui também precisa mudar.”

Mas já não sou quem eu era.

E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas sobre a graça:
Deus nunca confunde processo com destino.

Jesus olhou para Pedro e viu isso.

Viu um homem impulsivo.
Viu sua fé afundar junto com seus pés no mar.
Viu sua precipitação.
Viu a negação antes mesmo que ela acontecesse.

Mas, antes de Pedro cair, Jesus já havia dito:
“Eu, porém, roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos.”
— Lucas 22:32

E isso sempre me atravessa.

Porque Jesus viu a queda.
Mas também viu o depois.

Quando Pedro ainda nem havia fracassado, Jesus já falava sobre o homem que existiria depois que ele se levantasse.

Nós talvez tivéssemos olhado para aquela noite e visto um homem que negou Jesus três vezes.
Jesus olhou para ele e ainda enxergou alguém capaz de fortalecer irmãos.

Talvez esse seja o problema de julgar pessoas no meio da obra:
Nós vemos andaimes e pensamos que estamos vendo a casa.
Vemos um capítulo e pensamos que conhecemos o livro.
Vemos uma queda e a chamamos de destino.

Claro que discernimento continua sendo necessário.
Frutos importam.
Responsabilidade é indispensável
E disposição para mudar é fundamental.

Não escolha alguém apenas pelo potencial e passe anos tentando amar uma versão que só existe na sua imaginação.
Mas também não confunda alguém que se recusa a mudar com alguém que ainda está aprendendo a mudar.

Nós não transformamos ninguém.

Podemos amar.
Interceder.
Confrontar.
Estabelecer limites.
Permanecer.

Mas quem transforma é Deus.

E talvez amar também seja saber ficar por perto sem tomar o martelo das mãos dEle.

Isso vale para relacionamentos.
Para filhos.
Amigos.
Irmãos.
Para aquela pessoa que chegou até nós justamente no pior capítulo da própria história.

Porque talvez a mulher firme que você admira hoje já tenha sido aquela por quem alguém precisou interceder ontem.
Talvez quem hoje aconselha já tenha passado noites precisando ser recolhido do chão.
Talvez algumas das pessoas mais bonitas que conhecemos tenham sido encontradas por alguém quando ainda estavam cobertas de poeira.

E alguém ficou.
Alguém orou.
Alguém acreditou.
Alguém conseguiu enxergar que aquilo ainda não era o fim.

Foi assim comigo.

E, acima de todos que permaneceram, Deus permaneceu.

Quando eu enxergava escombros, Ele conhecia a planta.
Quando achei que havia estragado tudo, Ele sabia que ainda estava construindo.
Quando pensei que minha queda dizia quem eu era, Ele continuou me chamando de filha.

Talvez por isso, antes de desistirmos de alguém porque encontramos áreas interditadas, valha a pena perguntar:
Estou diante de alguém que se recusa a ser transformado ou apenas cheguei enquanto Deus ainda está trabalhando?

Nem todo mundo chega pronto.
Na verdade, ninguém chega.

Somos todos obras em andamento nas mãos de um Deus que conhece perfeitamente aquilo que ainda não conseguimos enxergar.

Por isso, quando encontrar andaimes, tenha discernimento.
Mas tenha graça também.

Você pode ter chegado apenas no meio da obra.

E existe uma promessa para aquilo que Deus ainda está construindo:
“Aquele que começou boa obra em vocês há de completá-la até o Dia de Cristo Jesus.”
— Filipenses 1:6

Então não confunda poeira com ruína.
Nem processo com destino.

Deus ainda não terminou.

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

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