Existem histórias na Bíblia que confortam.
Outras confrontam.
E existem aquelas que nos constrangem de um jeito difícil de explicar.
A história de Oséias fez isso comigo.
Talvez porque, durante muito tempo, eu tenha olhado para Gômer como quem observa uma mulher distante, tentando entender como alguém poderia ser tão amada e ainda assim ir embora.
Até perceber que eu também já fui ela.
Gômer abandonou Oséias. Escolheu outros caminhos, outros amores, e terminou em um lugar onde já não era dona sequer da própria liberdade.
Então Deus disse algo absurdo aos olhos humanos: Vá buscá-la.
Não espere que ela volte.
Não apenas a perdoe caso apareça arrependida.
Vá até onde ela está.
E a traga de volta.
E Oséias foi.
Quando a encontrou, precisou pagar para tê-la de volta.
A própria esposa.
A mulher que já havia sido dele.
A mulher que escolheu ir embora.
“Por isso eu a comprei por quinze peças de prata e um ômer e meio de cevada.”
Oséias 3:2
Foi isso que me constrangeu.
Ele pagou para resgatar quem já lhe pertencia.
E, de repente, eu não estava mais lendo apenas a história de Oséias e Gômer.
Estava lendo a minha.
Porque eu também conheci Deus e fui embora.
Tive um encontro com Ele, experimentei Sua presença, comecei a caminhar e, em algum momento, caí.
E porque ainda não compreendia a graça, achei que minha queda havia me tornado indigna de permanecer.
Então fiz o que fazemos quando ainda não entendemos que somos filhos: Fugi.
Não porque Deus tivesse me expulsado.
Mas porque eu mesma concluí que não deveria mais estar ali.
Hoje percebo que eu conhecia o Pai, mas ainda não pensava como filha…
Eu pensava como escrava.
E escravos fogem quando erram.
Mas filhos aprendem para onde correr quando caem.
E eu demorei para entender que não precisava organizar minha vida para depois voltar para Deus.
Eu precisava voltar para Deus e permitir que Ele organizasse em mim aquilo que eu jamais conseguiria colocar no lugar sozinha.
Demorei para perceber que nenhuma queda minha jamais O surpreendeu.
Deus nunca descobriu nada sobre mim.
Eu já me decepcionei comigo mesma.
Mas Ele nunca.
Já olhei para escolhas minhas e pensei:
Como fui capaz disso?
Ele porém, nunca precisou fazer essa pergunta.
Porque Ele já sabia.
Sabia das minhas fugas quando me encontrou.
Sabia das quedas quando me chamou.
Sabia das promessas que eu faria e não conseguiria cumprir.
Sabia de cada versão minha que ainda precisaria morrer para que outra pudesse nascer.
E mesmo sabendo, me amou.
Talvez essa seja uma das frases que eu gostaria de ter ouvido naquela época:
Você não precisa fugir de Mim por causa daquilo que Eu já sabia quando escolhi amar você.
Porque existe algo profundamente constrangedor em ser amado assim.
À primeira vista, uma graça tão grande até parece perigosa.
Se Deus continua recebendo quem volta, não seria fácil transformar o perdão em desculpa para continuar indo embora?
Paulo fez praticamente essa mesma pergunta:
“Continuaremos pecando para que a graça aumente? De maneira nenhuma!”
Romanos 6:1-2
Hoje eu entendo por quê.
Quem apenas ouve falar da graça talvez pense que ela seja uma licença para fugir.
Mas quem um dia foi alcançado por ela descobre exatamente o contrário.
A graça não nos dá liberdade para fugir. Ela tira de nós a necessidade de fugir.
Quando finalmente entendemos que somos amados, alguma coisa aquieta dentro de nós.
Não deixamos de falhar.
A carne continua gritando, as tentações continuam existindo e ainda carregamos partes de nós que precisam ser tratadas.
Mas quanto mais conhecemos Deus, menos queremos trocar Sua presença por aquilo que antes parecia tão irresistível.
Talvez santidade seja também isso:
Não apenas alguém se esforçando para não pecar, mas alguém que encontrou um lugar bom demais para querer abandoná-lo.
E pela primeira vez, eu compreendi Gômer.
Talvez ela tenha olhado para Oséias chegando naquele mercado e sentido vergonha.
Porque existe algo doloroso em ser encontrado por quem ferimos justamente no lugar onde nossas próprias escolhas nos levaram.
Imagine vê-lo chegando.
Aquele que ela abandonou.
Aquele que teria todos os motivos para deixá-la colher sozinha as consequências.
Era justamente quem vinha buscá-la.
Foi quando percebi que a cruz também era assim.
Nós fomos embora.
E Ele veio.
Nós escolhemos outros caminhos.
E Ele nos escolheu.
Nós não tínhamos como pagar.
E Ele pagou.
“Vocês foram redimidos […] pelo precioso sangue de Cristo.”
1 Pedro 1:18-19
Oséias levou prata e cevada.
Jesus levou a própria vida.
Não depois que merecemos.
Não quando finalmente conseguimos voltar sozinhos.
“Quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós.”
Romanos 5:8
Ainda.
Talvez seja uma das palavras mais bonitas do Evangelho.
Ainda pecadores.
Ainda longe.
Ainda confusos.
Ainda fugindo.
Ele nos amou.
A redenção nunca começou na dignidade de quem precisava ser resgatado.
Começou no amor de Quem decidiu ir buscar.
Talvez por isso uma frase do filme Amor de Redenção, que conta a história de Oséias e Gômer, tenha permanecido tanto tempo comigo.
Em determinado momento, diante de um pedido de perdão, a resposta da protagonista carrega uma verdade que hoje entendo de outro jeito:
“Como eu poderia negar perdão depois de todo o perdão que recebi?“
Porque eu já fui quem fugiu.
Já fui quem precisou ser encontrada.
Já fui quem se julgou indigna demais para voltar.
E talvez justamente por isso eu esteja aprendendo a olhar de outro jeito para quem ainda está no meio do próprio processo.
Não significa chamar erro de acerto.
Não significa permitir tudo.
Significa apenas lembrar que eu também fui encontrada no meio da obra.
Como poderia transformar o pior capítulo da história de alguém na definição de quem ela é, se Deus não fez isso comigo?
Depois de tanta misericórdia recebida, alguma coisa em nós precisa aprender misericórdia.
Depois de tanto perdão, alguma coisa em nós precisa aprender a perdoar.
E existe outra frase daquele filme que guardei comigo:
“Foi a dor que nos trouxe até aqui.”
Talvez tenha sido.
A dor me trouxe por algumas estradas que eu jamais escolheria novamente.
Algumas quedas me fizeram parar.
Algumas perdas arrancaram de mim versões que não morreriam de outra maneira.
Mas hoje consigo olhar para trás e perceber:
A dor pode ter sido parte da estrada.
Mas a redenção sempre foi o destino.
Talvez Gômer tenha pensado, naquele mercado, que havia finalmente conseguido destruir a própria história.
Até levantar os olhos e vê-lo chegando.
E talvez eu também tenha passado tempo demais olhando para tudo o que fiz depois que fui embora, até perceber que a cruz nunca foi sobre o quanto eu conseguiria voltar.
Foi sobre até onde Ele iria para me buscar.
Hoje consigo olhar para a mulher que um dia fui sem romantizar suas escolhas, mas também sem odiá-la.
Ela ainda não sabia.
Ainda confundia queda com expulsão.
Ainda confundia santidade com merecimento.
Ainda não entendia completamente o que significava ser filha.
Hoje eu entendo…
E se eu cair?
Corro para Ele.
Se falhar?
Corro para Ele.
Se encontrar dentro de mim outra parte que ainda precisa ser curada?
Corro para Ele.
Porque finalmente aprendi que filhos não precisam fugir do Pai quando caem.
Filhos voltam para os braços dEle.
Talvez a maior transformação que a graça tenha feito em mim não seja nunca mais precisar de perdão.
Mas saber onde encontrá-lo.
Eu fui embora.
Ele foi me buscar.
Eu não podia pagar.
Então Ele pagou.
Eu achei que precisava merecer voltar.
Ele nunca disse que precisava.
E quanto mais compreendo esse amor, menos vontade tenho de fugir.
Agora eu quero ficar.
Não porque esteja presa.
Mas porque finalmente descobri que sou livre.
E, sendo livre, percebo que não existe outro lugar onde eu queira estar.
“Vejam como é grande o amor que o Pai nos concedeu: sermos chamados filhos de Deus, o que de fato somos!”
1 João 3:1
Talvez redenção seja exatamente isso:
Descobrir que Aquele que pagou para nos ter de volta nunca esteve comprando escravos.
Estava trazendo filhos de volta para casa.