Capítulo 53 — Quando Deus me mostrou que eu também já fui a vilã da história

“A cura verdadeira começa quando a gente tem coragem de se enxergar por inteiro — inclusive nas partes que doeram no outro.”

Durante muito tempo, eu acreditei que alguns capítulos específicos da minha vida tinham um vilão bem definido.
Eu sabia onde doía, lembrava das cenas, memorizava cada palavra que me feriu.
E, honestamente… por muitos anos eu vivi como se eu tivesse sido apenas a parte machucada da história.

Até que, recentemente, numa conversa inesperada com alguém do meu passado,
o Espírito Santo me puxou pelo ombro e disse:

“Filha, agora olha o todo.”

E quando eu olhei… doeu.
Mas doeu diferente.
Doeu como quem desperta.

Porque eu lembrei com total nitidez das vezes em que fui ferida,
mas… quase não lembrava das vezes em que eu feri.
Das palavras que eu lancei dura demais.
Das atitudes impensadas.
Dos dias em que a impulsividade tomou o volante e o amor ficou no banco de trás.
Das cenas em que eu não fui vítima — fui vilã.

E foi estranho perceber isso.
Porque a gente memoriza com facilidade o que recebeu,
mas raramente encara com honestidade o que entregou.

Só que quando a gente coloca a dor diante de Deus…
Ele nunca entrega só o diagnóstico do outro.
Ele mostra a nossa parte também.
Não para acusar — para curar.

E foi assim comigo.
Ali, relembrando detalhes, fatos e conversas, eu enxerguei com clareza que eu também provoquei dor.
Que eu também quebrei o que o outro tentou segurar.
Que eu também tive dias de dureza, de reação, de defesa, de imaturidade.

E o que mais me desmontou foi entender que:
Eu não fui apenas ferida.
Eu também feri.

Essa consciência não me destruiu.
Me libertou.
Porque pela primeira vez em anos, eu enxerguei a minha história inteira
e não só a parte que me convinha lembrar.

Foi então que Deus me confrontou com a verdade mais libertadora que já experimentei:

“Você não precisa ser perfeita para ser perdoada. Precisa ser sincera.”

Eu apresentei a Ele não só as dores que recebi, mas as dores que causei.
Pedi perdão por tudo, até por aquilo que o outro talvez nunca vá conseguir nomear.
E quando fiz isso… algo dentro de mim destravou.

Eu não sabia que ainda havia culpas escondidas.
Mas Deus sabia.
E Ele só cura o que a gente tem coragem de entregar.

Foi aí que portas profundas começaram a se fechar.
Não porque a outra pessoa me perdoou — talvez nunca perdoe.
Mas porque Deus perdoou.
E o perdão d’Ele basta.

Porque os meus pecados, quando colocados nas mãos d’Ele,
não viraram lembrança… viraram história encerrada.

“Ele lança os nossos pecados no mar do esquecimento.”
— Miqueias 7:19

E naquele mar…
a Pam que feriu já não existe mais.

Hoje, eu consigo olhar pra trás não com culpa, mas com maturidade.
Não com vergonha, mas com gratidão.
Porque se existe algo que a presença de Deus faz é isso:

Ela nos mostra quem fomos — para que possamos finalmente ser quem Ele sonhou.

Eu não sou mais a mulher que reage.
Eu sou a mulher que ora.
Eu não sou mais a mulher que fere.
Eu sou a mulher que cura escrevendo.
Eu não sou mais a mulher que se esconde atrás da narrativa da vítima.

Eu sou a mulher que assume sua verdade, entrega suas falhas e continua — leve.

E talvez essa seja a beleza mais profunda da redenção:
No fim, ninguém sai de um relacionamento conturbado como só vilão ou só vítima.
Mas só quem se coloca diante de Deus sai dele curado.

E eu saí.

Quando percebi tudo isso, entendi que essa conversa do passado não veio para reabrir feridas.
Veio para selar o que faltava cicatrizar.
Porque Deus não me lembrou de nada para me punir
Ele me lembrou para me libertar.

E hoje eu sigo tranquila, sabendo que:
O perdão de Deus limpa até as partes da história que ninguém viu.
E cura até as partes que eu mesma tinha esquecido.

E quando a verdade se assentou no meu coração, nasceu essa oração:

“Senhor, obrigada porque o Teu amor não expõe — cura.
Obrigada porque o Teu Espírito não acusa — revela.
Hoje eu Te entrego todas as versões que já fui:
a ferida, a que feriu, a que reagiu, a que se defendeu, a que errou.
Leva o que sobrou da culpa, leva o que sobrou da dor,
leva as memórias tortas do que eu fui sem Ti.
E me permite seguir livre, inteira e restaurada,
sabendo que o que Tu perdoaste, ninguém pode mais cobrar.
Que cada capítulo do meu futuro carregue o perfume da redenção
e a leveza de quem já foi lavada pela graça.”
Amém!


“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é;
as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.”
— 2 Coríntios 5:17

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

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