Capítulo 77 — Quando amar deixa de ser adivinhação

“Sobre expectativas, linguagem do amor e a coragem de ensinar como queremos ser amadas.”

Eu sempre fui a mulher que queria flores.
Não pelo valor.
Não pelo gesto em si.
Mas pelo que elas diziam sem precisar de explicação: “eu pensei em você”.

Eu queria que abrissem a porta do carro.
Que puxassem a cadeira antes do jantar.
Que um buquê chegasse no meio de um dia comum no trabalho.
Que um chocolate simples me esperasse em casa.
Uma rosa única, antes de um encontro.
Uma mensagem fora de contexto.
Qualquer coisa que dissesse, em voz alta: “você importa”.

E durante muito tempo, achei que isso era romantização exagerada.
Depois, achei que era carência.
Até que um dia, eu finalmente entendi: era linguagem do amor.

A minha linguagem.

E não é curioso como Deus nos criou diferentes até nisso?
A Bíblia diz que “assim como o corpo é um e tem muitos membros, todos os membros, sendo muitos, formam um só corpo.” (1 Coríntios 12:12).
E no amor não é diferente.
Cada um sente, expressa e oferece afeto de um jeito.

Eu me sentia amada quando alguém fazia algo por mim.
Porque, por muito tempo, eu aprendi que precisava servir para ser escolhida.
Que precisava cuidar para merecer.
Que precisava me doar para não ser deixada.

Então, quando alguém fazia o mesmo por mim, aquilo soava como cuidado.
Como abrigo.
Como descanso.
Como pertencimento.

O problema é que eu colocava expectativa onde deveria haver conversa.
E esperava que o outro adivinhasse o que nem eu mesma sabia explicar.

Mas a Bíblia é direta quando diz:
“A esperança que se adia faz adoecer o coração” (Provérbios 13:12).
E nada adoece mais rápido um relacionamento do que expectativas não verbalizadas.

A gente cria cenários.
Constrói exigências silenciosas.
E depois se frustra porque o outro não corresponde a algo que ele nunca sequer soube que existia.

Porque a gente tem medo de falar.
Medo de parecer exigente.
Medo de parecer carente.
Medo de pedir o “mínimo”.

Mas o que é mínimo pra mim pode não ser mínimo para você.
Cada pessoa ama como aprendeu a amar.

Por isso Paulo nos orienta:
“Falando a verdade em amor, cresçamos em tudo” (Efésios 4:15).

E eu entendi que amor maduro fala.
Amor saudável comunica.
E amor bíblico não manipula o silêncio, ele esclarece com verdade.

Dizer “eu gosto de flores” não é humilhação.
Dizer “eu me sinto amada quando você me surpreende” não é cobrança.
Dizer “isso é importante pra mim” não é fraqueza.

É alinhamento.

Porque só depois que eu falo, o outro tem escolha.
E se, mesmo sabendo, ele não faz, a resposta deixa de ser dúvida e passa a ser direção.

Mas esse entendimento foi só metade do caminho.

A outra metade veio quando eu entendi que amor não é apenas receber — é postura.
E que feminilidade não é submissão cega, mas cooperação consciente.

Porque a Bíblia lembra que o amor “não busca os seus próprios interesses” (1 Coríntios 13:5).
E isso não significa se anular.
Significa não entrar no amor em modo de cobrança, mas em modo de construção.

Quando a mulher entende que não está em disputa com o homem, mas submissa à mesma missão
Ela para de lutar por controle e começa a gerar um ambiente acolhedor, onde ele pode exercer seu papel natural de provedor.

Ela passa a cuidar antes de receber.
Demonstrar carinho.
Ser vulnerável.
Ser feminina na essência
Não como performance, mas como verdade.

E provérbios 31 diz que “ela faz bem ao seu marido e não mal, todos os dias da sua vida”.
Não por obrigação.
Mas porque existe sabedoria em quem entende o poder do afeto.

Existe algo profundamente transformador quando uma mulher baixa as defesas.
Quando ela oferece ternura sem barganha.
Quando ela ama sem negociar valor.

Isso desperta.
Porque o amor verdadeiro é resposta, não imposição.

E eu demorei pra aprender isso.
Porque nem toda mulher foi ensinada a ser suave.
Algumas aprenderam a ser fortes antes de serem cuidadas.
Independentes antes de serem acolhidas.

Mas Eclesiastes nos lembra que “há tempo para todas as coisas” (Eclesiastes 3:1).
E há um tempo em que a força precisa dar lugar à entrega consciente.

Porque amor saudável não nasce da adivinhação.
Nasce da conversa.
Do ensino.
Da coragem de dizer: “é assim que eu me sinto amada”.

E também da maturidade de demonstrar, sem medo, aquilo que esperamos receber.

Porque no fim, o amor que permanece é aquele que escolhe aprender.
Que escolhe ajustar.
Que escolhe crescer.

“Acima de tudo, porém, revistam-se do amor, que é o elo perfeito”
(Colossenses 3:14).

E o elo perfeito não é silêncio.
É verdade, dita com graça.

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

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Comentários que floresceram por aqui.

2 Comentários
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Marcelo
1 mês atrás

Perfeito!

Neicarlos
1 mês atrás

O mais difícil ainda é reconhecer o quanto temos que aprender, se entregar, ouvir e saber se fazer ser entendido.