Capítulo 86 — Dores da Alma I — Depressão: Quando a dor apaga quem você é

Eu sempre fui forte.
Daquelas que resolvem, sustentam, decidem, avançam.
Daquelas que caem, mas levantam rápido
E ainda ajudam outros a se levantarem.

Talvez por isso eu tenha demorado tanto a perceber que estava adoecendo.

A depressão não chegou como colapso.
Não chegou gritando.
Ela chegou como um desaparecimento lento,
Um apagamento quase imperceptível de quem eu era.

Não foi tristeza constante. Foi ausência de alegria.
Não foi choro diário. Foi silêncio.

Um silêncio interno que não combinava comigo.

E o mais assustador não era a dor em si,
mas não me reconhecer mais dentro de mim.

E foi então que a força se tornou minha prisão.

Porque existe um tipo de dor que vem acompanhada de culpa.
Culpa por sentir.
Culpa por não dar conta.
Culpa por não ser grata o suficiente pela vida que se tem.

Eu olhava ao redor e pensava que tinha motivos demais para estar bem.
E ainda assim, não estava.

E isso me fazia sentir ingrata.
Fraca.
Indigna até de reclamar.

Porque eu tinha aprendido a ser forte.
Mas nunca tinha aprendido a pedir ajuda.

E pedir ajuda parecia derrota.
Parecia decepcionar.
Parecia desmoronar em público.

E isso era inaceitável pra mim, então eu segui.
Produzindo.
Funcionando.
Cuidando.
Sorrindo quando dava.

Por fora, tudo seguia.
Por dentro, algo quebrava.

E ali eu entendi o que o salmista escreveu:
“Por que você está assim tão triste, ó minha alma? Por que está assim tão perturbada
dentro de mim?”

Não era o mundo que desmoronava.
Era a minha alma.

Mas a depressão não tira só a vontade de viver.
Ela tira o brilho.
A confiança.
A percepção correta de quem somos.

De repente, tudo o que eu acreditava a meu respeito foi colocado em dúvida.

Eu me sentia incapaz no trabalho.
Insuficiente como mulher.
Distante de Deus.
Pesada para os outros.

Coisas pequenas viravam gigantes.
Conquistas enormes pareciam irrelevantes.

A vida era vista por um vidro embaçado.
Distorcida.
Dura.
Sem cor.

E nessa confusão interna, passei a agir de formas que não me representavam.

Reagia com irritação.
Me fechava.
Me afastava.

Não porque eu quisesse ferir alguém, mas porque eu estava tentando sobreviver dentro de mim.

“O coração angustiado deprime o espírito.”

E quando o espírito adoece, até o amor pesa.
Até a fé parece distante.
Até viver exige força demais.

E assim, aos poucos, eu fui me isolando.
Não necessariamente do mundo, mas das pessoas por dentro.
Eu estava acompanhada e ainda assim me sentia sozinha.

Porque como explicar uma dor que não tem nome?
Como traduzir um vazio que não vem de fora?

Quanto mais eu tentava explicar, mais sentia que ninguém entendia de verdade.

Então eu parei de tentar.

Me calei.
Me recolhi.
Me afundei.

E foi assim que compreendi outra verdade bíblica:
“Até os meus amigos íntimos se afastaram de mim.”
Não por falta de amor.
Mas porque a dor profunda cria uma distância invisível.

E em algum ponto, eu comecei a desistir de mim.
Da saúde.
Da aparência.
Da vida.

Fui me negligenciando sem perceber.
E junto com isso, fui perdendo coisas importantes pelo caminho.

Momentos.
Presença.
Relações.
O melhor de mim.

E essas perdas doem de um jeito diferente. Porque não voltam.

Porque a depressão cobra um preço alto quando não é enfrentada.

E no auge dessa dor, surgem pensamentos que assustam até quem os tem.

Não porque a pessoa não queira viver, mas porque não aguenta mais sentir.

É o cansaço da alma implorando por descanso.

Elias, um homem de fé, chegou a esse ponto quando disse:
“Já tive o bastante, Senhor. Tira a minha vida.”
E não era falta de fé.
Era exaustão profunda.

Foi aqui que eu entendi:
A cura não foi instantânea.
Eu não me curei sozinha.
Nem de uma vez.

Houve psicologia.
Houve psiquiatria.
Houve processo.

E isso precisa ser dito com responsabilidade.

Mas, se eu for honesta, nada disso teria sido suficiente sem Deus.
Foi Ele quem me sustentou quando eu não tinha força para segurar nada.
Foi Ele quem cuidou de detalhes tão pequenos que, na época, eu nem percebia.

Hoje, olhando para trás, eu vejo com clareza:
Era a mão d’Ele o tempo todo.

Mesmo quando eu não sentia, “Ele estava perto dos que têm o coração quebrantado.”

E com o tempo, eu entendi algo doloroso e libertador.

A falta de identidade me fez buscar validação em pessoas.
Aceitação em aplausos.
Pertencimento em relações.
Preenchimento onde nunca haveria plenitude.

E isso me levou a poços profundos.

Não como castigo. Mas como revelação.

Porque Jesus disse que veio para nos dar vida abundante.
E eu não vivia essa abundância porque ainda não sabia quem eu era n’Ele.

Mas hoje eu sei.

E aqueles vales não foram desperdício.
Foram preparação.

Hoje eu sei quem eu sou.
E por isso posso caminhar com quem ainda está se perdendo.

Não como quem aponta caminhos, mas como quem já sangrou neles.

E se você está nesse lugar agora — confusa, cansada, apagada — saiba: você não está sozinha.

Essa dor, por mais que hoje pareça fim, pode se tornar o lugar onde Deus vai te encontrar de forma mais profunda do que nunca.

Porque, no fim, é isso que Ele faz:

“Ele restaura a minha alma.” (Salmos 23:3)

E às vezes, restaurar a alma é ensinar a gente a existir de novo.
E Deus é especialista nisso. 

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

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