Capítulo 87 — Dores da Alma II — Burnout: Quando fazer demais te faz esquecer quem você é

Quando o Burnout chegou, eu não adoeci de uma vez.
Eu fui cansando aos poucos.

Cansando do barulho.
Da urgência.
Das demandas que nunca acabavam.
Das expectativas que nunca diminuíam.
Do peso de sempre entregar acima do esperado.

E eu não parei porque quis.
Eu parei porque algo dentro de mim já não conseguia mais continuar.

Porque o Burnout não começa com exaustão física.
Ele começa quando a alma passa a trabalhar sem descanso.

E eu ainda entregava.
Ainda produzia.
Ainda funcionava.
Mas cada dia custava mais do que o anterior.

No começo, eu achei que era só uma fase.
Um cansaço acumulado.
Um período puxado demais.

Então eu fiz o que sempre fiz. Aguentei.
Empurrei com a barriga e disciplina.
Ignorei os sinais.
Normalizei o esgotamento.

Porque eu sempre fui boa em dar conta e fingir que tudo estava bem.
E foi exatamente aí que o “fazer” começou a engolir o “ser”.

Eu não era mais quem eu era.
Eu era o que eu entregava.

O resultado virou identidade.
A performance virou valor.
O reconhecimento virou combustível.
E quando o combustível acabou, eu não sabia mais como continuar.

E o Burnout não tira só a energia.
Ele mina a segurança.
Corroi a identidade.
Desmonta a confiança que você levou anos para construir.

E de repente, eu duvidava da minha capacidade.
Da minha inteligência.
Do meu potencial.
E até do meu chamado.

Eu, que sempre soube me gerenciar, comecei a me sentir perdida.
Eu, que sempre tive respostas, comecei a me questionar.

E o mais cruel é que o mundo não vê.
Porque por fora, você ainda está ali.
Sentada.
Entregando.
Respondendo.
Mas por dentro, algo já se partiu.

E nessa época, minha fé também foi colocada à prova.
Eu acreditava em Deus.
Mas comecei a questionar se Ele ainda acreditava em mim.

Não porque Ele tivesse mudado, mas porque eu estava cansada demais para ouvi-Lo.

Orar parecia esforço.
Ler parecia peso.
Confiar parecia distante.

E isso gerava culpa.

Culpa por estar cansada.
Culpa por não sentir vontade.
Culpa por não conseguir descansar, nem em Deus.

E foi nesse lugar que entendi o que Jesus quis dizer quando falou sobre fardos.
Porque o problema não era trabalhar.
Era carregar sozinha o peso de ser tudo para todos.

Mas o Burnout também isola.
Não por falta de gente ao redor, mas por falta de espaço interno.
Você se fecha porque não tem energia para explicar.
Você se afasta porque não quer incomodar.
Você se cala porque acha que precisa dar conta sozinha.

E assim, o cansaço vira solidão.

A Bíblia descreve isso com uma honestidade dura:
“Em vão vocês se levantam cedo e se deitam tarde, comendo o pão que conseguiram com tanto esforço.”

E de forma dolorosa eu entendi:
Não era disciplina.
Era desgaste.

E em algum momento, eu comecei a duvidar de tudo o que eu sabia sobre mim.

Talvez eu não fosse tão boa assim.
Talvez eu tivesse enganado as pessoas.
Talvez eu não fosse capaz de sustentar o que construí.

Porque o Burnout faz isso.
Ele distorce a percepção.
Ele transforma cansaço em incapacidade.
E exaustão em fracasso.

Mas não era fracasso. Era limite.

E a recuperação não foi rápida.
Nem bonita.
Nem linear.

Houve pausa forçada.
Houve frustração.
Houve medo de perder espaço, relevância e respeito.

Mas também houve ajuda profissional.
Houve conversas difíceis.
Houve aprendizado.

E houve Deus.
Não como solução mágica, mas como presença constante.

E Ele não me cobrou produtividade.
Ele me chamou de filha.

Ele não me pediu entrega.
Ele me ofereceu descanso.

E foi nesse descanso que comecei a lembrar quem eu era antes do que eu entregava.

E com o tempo, eu entendi algo essencial:
Eu não adoeci porque era fraca.
Eu adoeci porque tentei sustentar com minhas forças o que só Deus poderia sustentar comigo.

Eu confundi chamado com exaustão.
Responsabilidade com auto abandono.
Excelência com auto sacrifício.

E Deus precisou me parar para me salvar de mim mesma.
Não para me diminuir.
Mas para me devolver.

Hoje eu sei que trabalhar não é pecado.
Produzir não é erro.
Ser dedicada não é problema.

O problema é esquecer quem você é quando o aplauso some.
O problema é acreditar que você vale apenas quando entrega.

Hoje eu sei que eu não sou o que eu faço.
Eu sou quem Deus diz que eu sou.

E a partir disso, eu faço com propósito, limite e descanso.

E se você está nesse lugar agora: exausta, confusa, questionando a própria capacidade
Saiba: isso não é o fim.
Na verdade pode ser o início de uma vida mais inteira.
Porque Deus não nos chama para sobreviver esgotados, mas para viver conscientes.

E quando tudo pesa demais, Ele ainda sussurra:

“Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados e eu lhes darei descanso.”
(Mateus 11:28)

E às vezes, o maior ato de fé não é continuar.
É parar e permitir que Ele nos refaça.
Porque Ele é especialista em recomeços.

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

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