Capítulo 89 — Dores da Alma — Encerramento: Quando o vale revela o propósito

Este capítulo não nasceu sozinho.
Ele é um apanhado de três travessias profundas que contei nos capítulos anteriores, da série “Dores da Alma: a depressão, o burnout e o puerpério.”

Três processos diferentes, com nomes distintos, mas que tocaram o mesmo lugar dentro de mim, a identidade.

Aqui, não falo de um diagnóstico específico, mas do efeito acumulado dessas dores quando elas se encontram, se sobrepõem e quase nos fazem desaparecer por dentro.

Se você chegou até aqui sem ter lido os outros textos, saiba: este capítulo é sobre o que acontece quando a alma passa por sucessivos vales sem tempo de se recompor. E se você leu os anteriores, este é o momento em que tudo se costura.

Porque nada disso aconteceu separado.
A depressão, o burnout e o puerpério
Não foram capítulos isolados da minha história.
Eles se somaram.
Se sobrepuseram.
Se misturaram.

E enquanto eu tentava continuar sendo forte, eu estava cansada demais para perceber que já estava quebrada.
A depressão apagava quem eu era.
O burnout exigia que eu continuasse funcionando como se nada estivesse acontecendo.
E o puerpério me roubava a referência de identidade no momento em que eu mais precisava saber quem eu era.

Eu estava exausta por fora e vazia por dentro.
E o mais perigoso é que eu ainda parecia bem.

Esses processos quase me destruíram porque atacaram exatamente o mesmo lugar:
Minha identidade.

Porque eu não sabia mais quem eu era sem produzir.
Sem sustentar.
Sem entregar.
Sem corresponder.

Eu não sabia mais quem eu era fora do papel, fora da função, fora da expectativa.

E quando você perde a identidade, qualquer dor vira sentença.
Qualquer cansaço vira fracasso.
Qualquer limite vira culpa.

E eu não estava apenas cansada. Eu estava perdida de mim.

Houve um tempo em que eu achei que até Deus tinha se afastado.
Mas na verdade, era eu que estava longe demais de mim mesma para perceber que Ele nunca saiu do meu lado.

Eu buscava respostas, quando Ele queria me revelar raízes.
Eu pedia alívio, quando Ele queria me devolver identidade.

Porque Deus não cura só a dor.
Ele cura o lugar onde a dor encontrou espaço.
E eu precisava fechar essas frestas para ser inteiramente curada. 

Foi no fundo desses vales que algo começou a mudar.
Não de uma vez.
Não de forma espetacular.
Mas de forma verdadeira.

Deus começou a me mostrar que eu não era o que eu fazia.
Que eu não era o que esperavam.
Que eu não era o que eu conseguia sustentar.

Eu era quem Ele disse que eu era.

Filha, antes de ser forte.
Filha, antes de ser líder.
Filha, antes de ser mãe.
Filha, antes de ser tudo para todos.

E essa revelação me salvou.
Porque quando reconhecemos que somos filhas, podemos encontrar descanso e consolo no colo do nosso Pai.

E quando a identidade voltou, o propósito começou a se revelar.
Não como cargo.
Não como palco.
Não como título.
Mas como missão.

Eu entendi que os vales não foram acidentes.
Foram treinamento.
Treinamento para ouvir quem ninguém mais escuta.
Para enxergar quem o mundo ignora silenciosamente.
Para sentar ao lado de quem está em silêncio, sem pressa de consertar.

Porque Deus não desperdiça dor.
Mas Ele transforma cicatriz em linguagem.

E hoje, eu sei que sobrevivi para ser ponte.
Ponte entre a dor e a esperança.
Entre a exaustão e o descanso.
Entre a perda de identidade e a verdade sobre quem somos em Deus.

Não porque eu sou forte, mas porque fui quebrada e reconstruída no lugar certo.
Pelo único que pode nos restaurar por completo.

E se você chegou até aqui, carregando fragmentos de si, saiba:
Não é coincidência.
Talvez você também esteja em um vale que parece fim, mas é nascimento.
Talvez você também esteja perdendo coisas para finalmente encontrar quem você verdadeiramente é.

E se hoje você só consegue simplesmente  respirar, isso já é fé suficiente.

Porque o mesmo Deus que me encontrou no chão, continua encontrando pessoas no exato ponto onde elas acham que tudo acabou.

“Depois que vocês tiverem sofrido por um pouco de tempo,
Ele mesmo os restaurará, os confirmará, os fortalecerá e os estabelecerá.”
(1 Pedro 5:10)

Então creia, o vale não te definiu. Ele te preparou.
Porque o propósito não nasce da força, mas da identidade restaurada em Deus.

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

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