“A mulher sábia edifica a sua casa, mas com as próprias mãos a tola a derruba.”
— Provérbios 14:1
Durante muito tempo, eu me vi apenas como a casa ferida.
A mulher que foi magoada, frustrada, rejeitada.
A que tentou amar e recebeu silêncio.
A que se doou demais e voltou vazia.
Era confortável ocupar esse lugar.
Não porque doía menos
Mas porque ali eu não precisava assumir responsabilidade.
Até o dia em que Deus, com a delicadeza que só Ele tem quando decide confrontar
Me mostrou algo que ninguém gosta de enxergar: eu também fui a tola.
Não fui tola por falta de inteligência.
Nem por ausência de valor.
Fui tola porque, em muitos momentos, deixei minhas feridas liderarem minhas escolhas.
Eu não sou — e nunca fui — a perfeição que, às vezes, quem olha de fora idealiza.
A mulher que hoje parece mais madura, mais tranquila, mais centrada (e sim, muitas vezes mais cobiçada), nasceu de um processo caro, doloroso e nada glamouroso.
Ela me custou perdas.
Me custou relações.
Me custou pessoas boas que passaram por mim no momento errado
E conheceram versões minhas que hoje eu mesma mal reconheço.
Porque houve um tempo em que eu buscava validação como quem busca oxigênio.
Aprovação como quem implora por permanência.
Pertencimento como quem tem medo de ser abandonada.
E quando isso não vinha…
Meus gatilhos assumiam o controle.
E nesses momentos, não surgia uma mulher adulta e sábia.
Surgia uma menina insegura, instável, emocionalmente imatura
Que amava com medo, reagia com intensidade e se tornava uma bomba-relógio emocional
Sempre pronta para destruir relações antes que elas tivessem a chance de me ferir primeiro.
E eu me feri em todas essas vezes. Sem exceção.
Mas hoje, com olhos mais maduros, eu preciso dizer a verdade inteira:
Em muitas delas, eu também feri.
Eu não fui apenas vítima.
E assumir isso não diminui a minha dor
Mas aprofunda a minha cura.
Porque existe um tipo de crescimento que só começa quando a mulher para de perguntar:
“Por que fizeram isso comigo?”
E começa a perguntar: “Quem eu me tornei enquanto tentava sobreviver?”
E muitas vezes, sem perceber, eu me tornei a parte tóxica da história.
Não por maldade, mas por carência não curada.
Por identidade ainda em construção.
Por feridas que gritavam mais alto do que a minha consciência.
E sim, eu já fui aquela que despertou no outro o seu pior lado.
Não porque o outro fosse essencialmente mau
Mas porque eu ainda não sabia ser segura, nem comigo, nem com quem se aproximava.
Isso é algo que dói admitir.
Mas liberta, inexplicavelmente.
Porque a mulher que eu sou hoje só existe porque eu aprendi, na marra, como não ser.
Eu precisei derrubar para entender o peso de edificar.
Precisei perder para aprender a sustentar.
Precisei olhar o estrago das minhas reações para escolher, com intenção, a maturidade.
Então, se você olha pra mim hoje e enxerga perfeição, acredite:
Muita coisa mudou, mas nem sempre foi assim.
E se você acha que já cheguei lá…
A verdade é que ainda estou em processo.
Só que hoje, infinitamente melhor do que antes.
E essa não é uma confissão para autopunição.
É um testemunho de consciência.
Porque a verdadeira mulher sábia não é a que nunca erra
Mas a que reconhece quando foi tola e decide, a partir daí, edificar diferente.
É nesse ponto que a casa começa a ser reconstruída.
Não sobre culpa, mas sobre responsabilidade.
Não sobre perfeição, mas sobre transformação.
“Quem encobre as suas transgressões jamais prosperará,
mas o que as confessa e deixa alcança misericórdia.”
— Provérbios 28:13
Porque a sabedoria começa quando paramos de nos defender e começamos a nos render.
E toda mulher que se permite essa verdade não apenas se reconstrói, ela inaugura uma nova história.