Houve um tempo em que eu achei que obedecer era fazer o que Deus mandava
Mas desde que Ele me explicasse antes.
Achei que fé fosse entender o plano,
Que confiança fosse ter clareza,
E que entrega fosse possível sem perdas.
Até que Deus começou a me chamar de outro jeito.
Não com gritos.
Não com respostas prontas.
Mas com palavras que chegavam aos poucos,
Como quem prepara o coração antes de mover os pés.
Foi numa ministração simples que algo caiu como fogo dentro de mim.
A passagem era clara, mas o confronto foi profundo:
“Então Elias saiu dali e encontrou Eliseu, filho de Safate.
Ele estava arando a terra com doze juntas de bois…
Eliseu, porém, deixou os bois, correu atrás de Elias e disse:
‘Deixa-me despedir-me de meu pai e de minha mãe, e então te seguirei’ (…)
Então Eliseu voltou, apanhou a junta de bois, sacrificou-os e queimou o arado para cozinhar a carne.”
— 1 Reis 19:19–21
E ali eu entendi algo que não era teológico, era existencial.
Deus não pediu que Eliseu queimasse os arados porque queria puni-lo.
Pediu porque Ele sabia que, se o arado ficasse inteiro, sempre haveria um plano B.
E a verdade é que se houver plano B, a gente volta.
Volta para o conhecido.
Para o que parece seguro.
Para a zona de conforto que, muitas vezes, nunca foi confortável, apenas familiar.
Deus conhece o coração humano.
Ele sabe que, quando existe uma rota de fuga, a gente usa.
Por isso, às vezes, o chamado não pede ajustes.
Pede ruptura.
Foi aí que outra história começou a me confrontar.
Eu me lembrei que quando Deus chamou Abraão para sair da sua terra, da sua parentela, da casa do seu pai,
Ele não entregou um mapa. Ele deu uma ordem:
“Sai da tua terra, do meio dos teus parentes e da casa de teu pai e vai para a terra que eu te mostrarei.”
— Gênesis 12:1
Ali, Abraão não questiona.
Não negocia.
Não pede garantias.
Ele apenas vai.
E eu percebi algo que me desmontou por dentro:
Questionar antes de obedecer já é uma forma sutil de desobediência.
A gente chama de prudência, de cautela, de responsabilidade.
Mas, muitas vezes, é só medo disfarçado de maturidade.
E ao longo da minha história, eu percebo quantas vezes Deus já me pediu isso:
Soltar, sair, abrir mão, confiar.
Portas que eu achei que eram permanentes se fecharam.
Lugares que me davam identidade ficaram pequenos.
Cenários onde eu já tinha controle deixaram de fazer sentido.
E sempre houve medo.
Sempre houve hesitação.
Sempre houve aquela vontade silenciosa de permanecer onde eu já sabia operar.
Mas também sempre houve uma coisa:
Deus me arrancando da zona de conforto para me levar ao lugar do propósito.
E eu aprendi, nesse caminho, que Deus nem sempre fala alto.
Às vezes, Ele sussurra.
Ele orienta no silêncio.
Fortalece no descanso.
E renova a fé quando a gente acha que não aguenta mais.
E hoje, vivendo mais uma transição — com portas se movendo, oportunidades surgindo, decisões que podem mudar o rumo — eu reconheço o padrão.
Quando é Deus, não vem ansiedade.
Vem temor.
Vem dependência.
Vem aquela oração perigosa:
“Senhor, só deixa a porta abrir se for a Tua vontade.
Se não for para Te servir melhor, me impede.
Eu não confio nas minhas escolhas.
Mas eu confio em Ti.”
E isso muda tudo.
Porque se a porta abrir, não é promoção — é missão.
Se não abrir, não é perda — é proteção.
E foi nesse lugar que uma frase passou a ecoar dentro de mim,
Costurando tudo o que eu vivi e o que ainda estou vivendo:
“O chamado não vai te custar caro. Ele vai te custar tudo.”
Porque não existe meio-termo no Reino.
Ou você entrega tudo para viver plenamente o que Deus tem,
Ou você vive com reservas e nunca experimenta a totalidade.
Hoje eu sei:
Obedecer não é ausência de medo.
É decisão apesar dele.
E quando a dúvida tenta voltar,
Quando o coração ameaça esmorecer,
Uma verdade me sustenta como âncora:
“O justo viverá pela fé.”
— Habacuque 2:4
Não pela lógica.
Não pela segurança.
Não pela previsibilidade.
Mas pela fé.
E quem caminha com Deus pode até parecer parado aos olhos do mundo, mas nunca está estagnado no céu.
Porque enquanto o mundo vê espera, Deus vê preparo.
Enquanto eu vejo incerteza, Deus vê maturidade.
E se Ele disser “vá”,
mesmo sem explicar,
mesmo sem mostrar o fim,
mesmo pedindo tudo…
Eu vou.
“Porque antes eu O conhecia só de ouvir falar.
Mas agora, os meus olhos O veem.“
“Confia no Senhor de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento.
Reconhece-o em todos os teus caminhos e Ele endireitará as tuas veredas.”
— Provérbios 3:5–6