Capítulo 94 — Quando o alívio virou prisão

“Quando tentei preencher o vazio com o que prometia alívio, mas só Deus podia curar.”

Existe um tipo de dor que não faz barulho.
Ela não grita, não sangra por fora e não chama atenção.
Ela se instala em silêncio e vai ocupando tudo por dentro.

Durante um período da minha vida, eu estava assim: funcional por fora, mas devastada por dentro.
A depressão não me tirava da cama todos os dias, mas me tirava o sentido.
Eu sorria, trabalhava, me relacionava… mas carregava um vazio que não sabia nomear.

Foi nesse lugar que experimentei o que hoje reconheço como tentativas desesperadas de anestesia.
Nada começou grande, nada parecia perigoso.
Era sempre “só um pouco”, “só dessa vez”, “só para aliviar”.
E, por alguns momentos até aliviava.

Havia instantes em que eu me sentia feliz, ou pelo menos distante da dor.
O corpo relaxava, a mente silenciava e o peso parecia ir embora.
Mas tudo aquilo que prometia descanso cobrava um preço alto depois.
E o preço vinha no dia seguinte: culpa, esgotamento, vergonha, desgaste físico e uma sensação ainda maior de vazio.

Eu dizia para mim mesma que tinha o controle.
Que podia parar quando quisesse.
Que ninguém sabia e portanto, não havia problema.

Hoje eu entendo:
O autoengano é uma das formas mais sutis de escravidão.

Porque nada daquilo me edificava.
Nada daquilo me curava.
Nada daquilo me preenchia de verdade.
Era só uma tentativa humana de tapar um buraco espiritual.

Com o tempo, comecei a perceber o quanto aquilo me depreciava
No corpo, na alma, na identidade…

E eu não falo de moral.
Falo de essência.
Falo de como eu me afastava de quem eu realmente era cada vez que tentava fugir da dor em vez de encará-la.

A verdade é que eu não estava buscando prazer.
Eu estava buscando alívio.
Pertencimento.
Sentido.
Descanso.

E só hoje consigo dizer isso sem culpa:
Eu estava tentando encontrar em fontes erradas algo que só Deus poderia oferecer.

A Bíblia chama essas tentativas de cisternas rotas — reservatórios que prometem água, mas não conseguem reter nada.
Fontes que parecem suficientes no começo, mas nos deixam ainda mais sedentos depois.

“Porque o meu povo cometeu dois males: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas,
e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm águas.”
(Jeremias 2:13)

E nada descreve melhor o que vivi.

Hoje, olhando para trás, não falo disso com orgulho — mas também não falo com vergonha.
Falo com consciência.

Porque eu sei quem eu era.
E sei, principalmente, quem Deus me permitiu me tornar.

Não foi força de vontade.
Não foi maturidade emocional repentina.
Não foi autocontrole humano.

Foi quando reconheci que não conseguia sozinha.
Quando parei de tentar administrar o vazio e permiti que Deus o preenchesse.
Quando entendi que não precisava anestesiar a dor — precisava curá-la.

Mas a cura não veio de uma vez.
Veio em camadas.
Veio com verdade.
Veio com renúncia.
Veio com entrega real.

Hoje, eu não sinto mais falta daquilo que um dia achei que me fazia bem.
Porque quando a fonte certa nos preenche, as falsas perdem o apelo.
Quando Deus ocupa o lugar central, o resto simplesmente não compete.

E eu compartilho isso porque sei que existem pessoas vivendo exatamente assim, por baixo do radar.
Gente que ninguém imagina.
Gente funcional, inteligente e sensível, mas ferida.
Gente tentando sobreviver à própria dor em silêncio.
E buscando em fontes erradas o preenchimento que só Deus pode proporcionar.

E se você é uma dessas pessoas, eu quero te dizer com toda honestidade de quem também já esteve nesse lugar:
Existe saída!
Mas ela começa quando a gente para de fingir que está tudo bem e admite que precisa de ajuda.
Ajuda de Deus.
Ajuda de pessoas.
Ajuda verdadeira.

Porque nada que nos destrói merece ser chamado de alívio.
E nenhuma dor é grande demais para aquele que nos criou por inteiro.

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei.”
(Mateus 11:28)

Hoje, eu sei onde buscar descanso.
E é por isso que não preciso mais fugir de mim mesma.

Mas se você ainda se encontra nesse lugar, eu te convido a repetir essa oração comigo:

“Senhor, eu te agradeço porque Tu não me encontraste no auge, mas no fundo.
E mesmo assim, não desistiu de mim.
Obrigada por me mostrar que o vazio que tentei preencher era, na verdade, um espaço reservado para Ti.
Cura os corações que hoje tentam anestesiar a dor em fontes que não sustentam.
Revela a verdade com amor. Liberta sem expor. Restaura sem acusar.

Que cada pessoa que leia essas palavras entenda que há um caminho de volta,
que há cura, libertação e descanso verdadeiro em Ti.
Que assim seja, Amém.”

Pamela Martins

“Cada testemunho compartilhado aqui conta um pouco de mim e muito de Deus.
Espero que aquilo que um dia me feriu, sirva de cura para quem ler, e que cada palavra escrita com dor, floresça em consolo, esperança e recomeço.”

Compartilhe essa postagem

Comentários que floresceram por aqui.

0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments